sexta-feira, maio 04, 2012

Nicholas Carr, a internet e o nosso cérebro

O livro de Nicholas Carr, The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains (2010) não é um grande livro, mas é um livro sobre a nossa condição actual, que nos fala das preocupações produzidas pela cultura contemporânea, nomeadamente a produzida pelos tempos da internet. Como tal é um livro que faz parte de um pensamento em construção, e que no futuro ele próprio fará parte desta história. E é por isso que faz sentido deter-nos um pouco sobre o que nos diz Carr. Não sendo propriamente um ludita, está longe de se apresentar como um defensor das tecnologias web. É um livro anterior à publicação do artigo da Science do ano passado de que falei aqui, mas que se foca sobre a mesma problemática das supostas alterações cognitivas despoletadas pelos novos modos de aceder à informação via internet.


O maior erro deste livro passa por assumir as teorias da neuroplasticidade como algo muito mais activo do que aquilo que realmente é. É verdade que fomos descobrindo que o nosso cérebro não pára de se adaptar aos 16 ou 17 anos, que continua a fazê-lo pela vida fora. Mas também é verdade que se o faz é a um ritmo bastante lento, e não em toda a sua extensão. Por isso procurar basear toda uma teoria no facto de que os nossos cérebros se alteram apenas com o contacto com a web é esperar demasiado desta nossa capacidade. Era bom que assim fosse, pois muitos outros problemas e patologias teria aqui muitas soluções.

Assim e passada a primeira grande metade do livro a discutir a neuroplasticidade, existem porém coisas a reter porque não são meras especulações, são trabalhos que temos feito e sobre os quais temos dados. Nesse sentido concordo com algumas das questões lançadas sobre a dispersão e fragmentação de mensagem que o hipertexto veio introduzir no discurso do Livro. É algo que transcrevo para aqui, porque é importante em termos de percepção sobre a Interactividade.
"Back in the 1980s, when schools began investing heavily in computers, there was much enthusiasm about the apparent advantages of digital documents over paper ones. Many educators were convinced that introducing hyperlinks into text displayed on monitors would be a boon to learning. Hypertext would strengthen critical thinking, the argument went, by enabling students to switch easily between different viewpoints. Freed from the lockstep reading demanded by printed pages, readers would make all sorts of new intellectual connections between diverse works. The hyperlink would be a technology of liberation.

By the end of the decade, the enthusiasm was turning to skepticism. Research was painting a fuller, very different picture of the cognitive effects of hypertext. Navigating linked documents, it turned out, entails a lot of mental calisthenics—evaluating hyperlinks, deciding whether to click, adjusting to different formats—that are extraneous to the process of reading. Because it disrupts concentration, such activity weakens comprehension. A 1989 study showed that readers tended just to click around aimlessly when reading something that included hypertext links to other selected pieces of information. A 1990 experiment revealed that some “could not remember what they had and had not read.”
Aliás isto mesmo é o que ainda hoje muitos continuam a pedir à Escola, que esta avance no sentido do ensino online por vias interactivas, quando essa não pode nunca servir de via substitutiva, mas apenas complementar. Esta questão do hipertexto e do ensino online, liga-se muito intimamente ao assunto do multitasking. Porque nestes discursos do ensino tecnológico, começamos a ouvir falar das novas gerações, dos nativos digitais. Jovens que não só sabem mais do que os professores como possuem capacidade para fazer várias coisas em simultâneo. Mas a realidade é que um pequeno teste, como o que se pode ver no vídeo aqui abaixo, em que pedimos a um jovem em 2012, ou seja um suposto nativo digital, para conduzir e mandar um SMS ao mesmo tempo, e o desastre é total. Simplesmente verificamos, que o milagre da Neuroplasticidade nas novas gerações não aconteceu, e que o Multistasking humano não é mais do que um mito.


Este discurso mais negativo sobre o Hipertexto, Hipermedia e Multitasking faz sentido e temos estudos que o suportam. Aliás sabemos disto quando partimos para a construção de narrativas em ambientes interactivos. Que se cedermos à vontade total da interactividade, e criarmos um jogo totalmente hipermediado, perdemos o nosso jogador, em termos narrativos. Ou seja a história fragmenta-se e no final do jogo, o jogador já não se lembra de onde partiu a história, menos ainda por onde andou. Por isso mesmo nos jogos mais interactivos, continuamos a forçar a linearidade narrativa, porque essa é o garante da construção de compreensão da mensagem. Sobre isto escrevi bastante em Emoções Interactivas.

Isto relaciona-se com várias coisas, nomeadamente com o modo como construímos as nossas memórias. Estas requerem altos níveis de atenção focada, por forma a dar tempo à criação de novas ligações, ou novas sinapses. Estas ligações só se conseguem com concentração mental, repetição e forte envolvimento. Isto é o que fazemos num livro, mantemos a atenção focada apenas naquela página, e naquele fio narrativo. O problema do objecto hipermedia ou internet é que este ao permitir saltitar entre assuntos, ou linhas narrativas, retira a focagem, logo diminui atenção, por sua vez diminui a solidificação de novas memórias. Carr vai pegar nisto para explicar que a web está a danificar as nossas capacidades de concentração, a diminuir as nossas memórias, e logo a diminuir as nossas capacidades cognitivas de aprendizagem e de crescimento enquanto seres.

How to focus... , de Leo Babauta

Ora isto não faz muito sentido, porque ninguém disse, quer dizer exceptuando os arautos do novo mundo tecnológico, que o multimedia, que a interactividade, ou que a internet, estava cá para substituir os livros, o cinema, o teatro ou qualquer outra forma de expressão e construção do Eu ou do Nós. Os Media Interactivos possuem muitas valências de relevo, nomeadamente a sua componente de interactividade que lhes permite gerar situações de pura simulação e experienciação e que com isso conseguem gerar aprendizagens mais eficientes e duradouras que um livro. Aliás basta ver o exemplo da diminuição drástica de acidentes de aviação após os pilotos terem deixado de aprender a pilotar ouvindo os pilotos mais experientes, e terem passado a treinar em simuladores, como nos relata Lehrer.


Mas este tipo de aprendizagem por acção, ou simulação de acção, não se aplica a tudo aquilo que nós somos enquanto espécie. Existe todo um mundo de acções externas as quais acredito que a internet e nomeadamente os artefactos interactivos desenhados para o efeito conseguem ultrapassar facilmente o livro na transmissão e construção de novas memórias. Mas depois existe todo um reino de inacções, de construção interna do ser, do indivíduo que não se consegue construir por aqui. Interactividade, significa acima de tudo acção e reacção que por sua vez está na antítese da empatia e da contemplação. Características essenciais na construção emocional, social e cultural do indivíduo.

Quanto às questões levantadas por Carr sobre a sua experiência pessoal de se sentir cada vez mais incapaz de concentrar, e de ter que se deslocar para as montanhas para conseguir escrever este livro. Nada de novo, isso já acontecia antes com diferença entre o ambiente citadino e rural. O problema da nossa concentração no dia a dia não é a internet, mas a quantidade de coisas em que nos envolvemos, e sobre as quais temos de aprender a dizer que não.

À la recherche du temps perdu (1913-1927), de Marcel Proust

E isto aplica-se também à questão do Deep Reading que Carr diz que está a desaparecer da sociedade, e que de algum modo o próprio Clay Shirky vem dizendo em alguns dos seus textos, argumentando que nos dias de hoje já ninguém quer saber de ler Guerra e Paz ou Em Busca do Tempo Perdido. Mas isto nada tem que ver com a internet basta pegar em qualquer jornal, revista ou livro que relate experiências escolares dos anos 1980 ou 1990 pré-internet para vermos como os alunos já fugiam da leitura. Livros grandes ou pequenos, a leitura sempre foi vista como a impossibilidade do acto de brincar livre, pela sua necessidade de absoluta concentração. Por isso mesmo a escola, continua a ser um lugar de esforço, de obrigatoriedades, em que não podemos fazer apenas aquilo que queremos. Sem esforço, não se consegue o deep reading, sem o deep reading, não se consegue a construção de conhecimento interno capaz de nos fazer evoluir enquanto indivíduos.
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