domingo, abril 23, 2017

A Ciência não é Crença é Conhecimento

Sei que não devia partilhar o texto publicado pelo jornal Público, "Crença na Ciência", mas não o fazer não serve o propósito que me leva a escrever estas linhas. Não adianta esconder um texto a que qualquer um pode aceder, que ainda por cima lança ideias com que muitos comungam. É antes mais relevante dá-lo a conhecer e explicar porque está errado. Enquanto membro da comunidade científica é meu dever contribuir para a formação da sociedade, devo a esta o manter-me alerta e vigilante quando a mentira é apresentada como verdade. Se o jornal Público publica um texto carregado de falsidades sem qualquer contextualização, alerta ou filtragem, cabe-nos a nós fazer aquilo que o jornal, que já foi referência nacional, se coibiu de fazer.


Rui Devesa Ramos não é alguém que resolveu mandar uns bitaites, é Doutor em Psicologia, e como tal tem responsabilidades para com a comunidade que habita. Podemos questionar a obtenção do título, mas tendo-o obtido perante um júri reconhecido, interessa-me mais concentrar no que diz neste texto do que no modo como obteve o título.

Ramos começa por dizer que “Do ponto de vista antropológico a ciência nunca será mais do que uma crença civilizacional”, o que não está errado. A antropologia dedica-se ao estudo do homem, a compreender como se fez, de que se fez, e como continua a fazer. Deste ponto de vista, referir que a ciência é uma das grandes crenças da humanidade contemporânea nada tem de errado. A ciência é hoje o principal ideário das nossas ações, e por isso define grandemente aquilo em que acreditamos enquanto humanos. Mas a frase que se segue, e que acaba por dar mote a todo o restante texto, apesar de parecer ser do mesmo teor, é totalmente distinta:
“o que faz com que a ciência “funcione” deriva determinantemente da crença que temos nela” 
Isto não é verdade, é uma mentira atirada com areia, acima descrita, aos olhos de quem lê. A ciência não funciona porque se acredita nela, a ciência funciona porque a sua ação é observável e experienciada pelos membros da comunidade. A areia continua pelo resto do texto, porque Ramos dedica-se apenas ao tópico que lhe interessa atingir, a medicina, que como sabemos é uma das áreas que apesar de ter evoluído drasticamente, tem de lutar permanentemente contra as forças da natureza que se vão alterando com o tempo e atuação humanas. Ou seja, muitos dos cancros que hoje conhecemos não existiam há 100 anos, porque não existiam as comidas processadas que hoje comemos, nem tínhamos hábitos sedentários como hoje temos. Mas em contra-partida foi a medicina que eliminou a tuberculose que tantos milhares de nossos antepassados consumiu ao longo do século passado.

Não, não foi a crença que eliminou a Tuberculose, foi a ciência. Não foi a crença que eliminou a Peste Negra, a Rubéola, a Lepra, a Tosse Convulsa, a Difteria, o Raquitismo, a Poliomielite ou a Escarlatina. Foi a ciência, porque não é teoria, nem sequer mera ideia, é antes experimentação e validação de opções de tratamento. Sim, para encontrar o tratamento certo é preciso errar, errar muito, mas encontrado e validado, pode ser utilizado por todos os restantes membros da comunidade, de modo a que possam evitar ser acometidos pelos mesmos males. Sim a medicina não é uma religião, é uma ciência, e é por isso que não cura tudo, temos muito ainda para fazer — Sida, Cancro, Alzheimer, Parkinson, etc. Se bastasse acreditar, estas doenças também teriam sido já erradicadas, mas não chega acreditar. Não há crença que salve uma criança acometida de um cancro de leucemia, a ciência pode falhar, e falha muito, mas sem ela nem sequer de taxas de sucesso poderíamos falar.

Mas e saindo da área da medicina, será que a crença tem uma palavra mais importante a dizer que a ciência. Podemos dizer que um avião voa porque as pessoas que lá vão dentro acreditam no ato de voar? Podemos dizer que a televisão dá imagens, ou o frigorífico refrigera, porque as pessoas acreditam em algo que nem sequer sabem como funciona? Podemos dizer que quando aplicamos força sobre os pedais de uma bicicleta e as rodas desta se movem, tal acontece porque acreditamos nessa força?

O problema de Rui Ramos é querer atirar areia para os olhos de quem o lê. É usar conceitos abstratos, tais como crença e vontade individual, para definir conceitos concretos como ciência, mas obviamente que ao fazê-lo induz-se a si próprio em erro, como quando diz:
“Toda a crença emanada pela vontade individual é necessariamente boa, devendo, contudo, ser bem informada – vale mais que toda a ciência.” 
A crença pressupõe uma convicção, mas se é informada deixa de ser crença, porque passa a ser sustentada, e logo passa a valer o mesmo que ciência. Ou seja, acreditar que posso curar uma dor de dentes simplesmente eliminando a dor do meu pensamento, é uma convicção que resulta da falta de informação, e que quando aplicada faz com que a dor regresse sempre que o pensamento da dor se apresenta. A convicção individual não resolve o problema, e a realidade demonstra-o passado pouco tempo. Já acreditar que a dor passará depois de morto o nervo que alimenta o dente, é uma crença baseada em informação presente na comunidade, que efetivamente depois de experimentada faz a dor desaparecer. Mas não desaparece apenas para mim, desaparece para todos os humanos que se submetem a esse mesmo tratamento. Ou seja, a crença deixou de o ser, porque informada pela experiência da comunidade passou a ser conhecimento, que não se baseia em convicções mas em experimentações.

Por isso a crença não vale mais do que a ciência. A crença pode servir para nos conduzir a aceitar a ciência, pelo desconhecimento da sua complexidade, mas só o facto desta funcionar é que transforma a crença em conhecimento. Não acreditamos cegamente, acreditamos porque vemos funcionar. Não entramos num avião para voar porque acreditamos, mas porque conhecemos. Um conhecimento criado pela experiência da realidade do voo feito, do que vemos pela janela e pelo facto de em duas horas estarmos num ponto situado a dois mil quilómetros do ponto de partida. Do mesmo modo não tomamos uma vacina porque estamos convictos do seu efeito, tomamos porque tendo visto quem as tomou não sofrer de doenças que os nossos antepassados sofreram, acreditamos nesse conhecimento. A ciência não exige crença, a ciência exige experimentação.

quinta-feira, abril 13, 2017

A Ciência do Governo, o Ministro e a FCT

No final de 2016 disse no Facebook que o governo tinha falhado em toda a linha da Ciência ao não abrir qualquer concurso de financiamento de projetos de investigação ao longo de todo o ano. Tinha passado todo o ano em reuniões, audições e conversas, mas ação efetiva nada tínhamos visto. Que seria preciso algo em grande em 2017 para recuperar a credibilidade. Chegado a 2017, com que nos presenteia o governo?

As 500 páginas de leitura necessária para submeter um projeto científico em 2017

Um concurso de financiamento de projetos científicos que é tudo menos tal. Talvez o melhor adjetivo para qualificar este concurso seja aquele que já vai sendo comum na política nacional, uma grande trapalhada.

1 - O grande objetivo do concurso passa afinal por dar resposta a uma bandeira política, a criação de emprego científico, e não verdadeiramente apoiar a realização de projetos de investigação. Ou seja, dos 240 mil euros a que se pode concorrer, 50% são automaticamente alocados ao pagamento de um desses empregos ao longo de 3 anos.

Assim, em vez dos propalados 240 mil euros oferecidos ao projeto, temos na verdade 100 mil, ou seja, metade do que tínhamos nos concursos anteriores.


2 - As regras impostas à aquisição de equipamento, como computadores entre muitos outros materiais, usam lógicas de desgaste. Ou seja, um computador prevê-se que dure 4 anos, como os projetos só podem desenvolver-se até 3 anos, ficará nas costas do professor arranjar dinheiro para suportar a última quarta parte do custo desse equipamento.

Compreendendo esta lógica numa empresa, não se compreende como é que se espera que um professor isolado, que é obrigado a assinar termos de responsabilidade financeira, se pode colocar numa situação destas. Espera-se que retire do seu salário congelado há 10 anos?


3 - Para tornar tudo isto ainda mais aliciante, o concurso foi desenhado a partir de um amontoado de preceitos, regras e obrigações que converteram o tradicional manual de candidatura, que tinha à volta das 30-50 páginas, numa dúzia de documentos, que depois de imprimidos perfazem cerca de 500 páginas. Ou seja, o professor — que tem de dar aulas, gerir a universidade, e fazer investigação — deve agora ainda encontrar tempo e capacidade mental para ler e digerir estas 500 páginas de regras e regrinhas. Que importa o estado-da-arte da investigação, que importa a inovação do projeto apresentado, o relevante é obedecer a todos os parâmetros que o governo impõem para aceder ao dinheiro.

O governo diz-nos que é porque tem de justificar os dinheiros a partir de múltiplas rubricas europeias. Eu digo que não, que é um problema da sua gestão, péssima organização e desconsideração total pelos professores da universidade portuguesa. Para que servem os Sistemas de Informação, porque andamos a gritar contra a automação. Ora se o governo tivesse feito o seu trabalho, teria ele próprio desenhado o sistema de informação, por forma a automatizar todas as relações entre linhas de financiamento, não delegando para os investigadores a necessidade de conhecer os meandros desses mecanismos. Ao governo compete facilitar a investigação, aos investigadores compete investigar.


4 - Como não podia deixar de ser em processos desta magnitude burocrática, as pérolas vão-se descobrindo aos poucos. Primeiro percebeu-se que do último concurso para este, as áreas científicas interdisciplinares tinham mudado de nome, devem ter propriedades camaleónicas. Mas não só, as áreas da FCT não são as mesmas que depois surgem na documentação que define as áreas de investimento a privilegiar pelo país em ciência. Assim, a ciência pode ser de tudo um pouco.

Mas o melhor surge quando olhamos para essas novas áreas que servem de espartilho ao financiamento de ciência, e se percebe que a investigação foi submetida a uma espécie de regionalização científica, com os montantes de verbas a variar de região para região, e nem todas as áreas de investigação a serem elegíveis em todas as áreas geográficas. Ou seja, um professor em Vila Real, apesar de leccionar a mesma área que um colega de Lisboa, e precisar de fazer avançar o seu trabalho de modo a garantir que aquilo que lecciona é o estado-da-arte, não o poderá fazer porque a sua NUT não aceita que ele o faça na sua Universidade.


5 - Se o conteúdo do proposto é mau, a forma não lhe fica atrás, nomeadamente naquela que é a plataforma de submissão das candidaturas. Se até aqui submetíamos tudo numa plataforma mais ou menos simplificada pela FCT, agora apresentam-nos um Balcão 2020 que é um verdadeiro terror. Tanto que temos investigadores nacionais seniores a dizerem que nem sequer lá entram. Resta então aos mais novos que não têm alternativa, e ainda precisam de lutar pela carreira fazer esse trabalho?! Mais, no caso de algumas Universidades, como a minha, isto é ainda mais interessante, já que o professor não terá apenas de preencher a plataforma do Balcão 2020, como terá ainda de replicar tudo para uma segunda plataforma interna. E como tudo isto tem de ser confirmado internamente, terá ainda de o fazer muito antes do prazo final dado pela FCT!

Acredito que os Reitores e o sr. Ministro nunca tenham entrado nestas plataformas, assim como nunca tenham olhado para o dossier de PDF necessários ao seu preenchimento.


6 - A fechar, e como não poderia deixar de ser, já que é prática de todos os Sistemas de Informação desenvolvidos pelos Serviços Públicos nacionais, foram criados grandes ações de informação e explanação do modo de funcionamento do concurso. A incompreensão do funcionamento pela comunidade é de tal ordem que as sessões organizadas se esgotaram, e tiveram de ser realizadas novas, incluindo outras a nível interno.

Ou seja, nem a Informação foi preparada para os utilizadores finais, nem as plataformas dão resposta a tal. Design de Interação é algo que não existe para todos estes sistema, já que primeiro implementa-se e depois explica-se como funciona. Os humanos que obedeçam às exigências das máquinas.


Resumindo, o último concurso de financiamento a projetos científicos em Portugal foi publicado em 2014. Passados três anos, e dois anos depois deste Ministro estar no governo, é isto que se oferece à ciência nacional. Querem rankings de Universidades jovens, universidades não jovens, de publicações na Science, indexadas nas ISI e SCOPUS? Tenho uma recomendação, façam como alguns desses países gananciosos por rapidamente subir nos rankings, e "comprem" investigadores com pergaminhos criados lá fora. Esqueçam o desenvolvimento de ciência por cá, já que dá muito trabalho de gestão, e se existe algo em que Portugal continua a ser bom é na desorganização total.

O sr. Ministro diz sentir falta de "ativismo académico", tem toda razão, pouco ou nada se ouviu até agora sobre toda esta trapalhada, vejo todos os meus colegas muito calados.

sexta-feira, abril 07, 2017

Walden, uma história muito mal contada

Há anos que leio referências a “Walden” que leio reverências a Thoreau, e agora que aqui chego e leio a obra em si, surpreendo-me sobremodo com o que encontro. Não vinha à espera de nada em particular, apenas talvez o reconhecimento da natureza, o reconhecimento de uma vida enriquecida pela simplicidade dessa natureza, contudo encontrei tudo menos isso.


Antes que possam dizer que passei ao lado da essência, li sobre a obra, sobre o autor, sobre a sua proximidade com Ralph Waldo Emerson e em particular sobre a corrente filosófica que ambos procuram defender e fazer avançar, o transcendentalismo. Tanto que quase poderia desculpar a má impressão criada pela obra com base nessa corrente. Mas sendo o transcendentalismo proposto por estes, é sobre estes que nos devemos pronunciar.

Diga-se que a minha visão crítica desta obra não é uma raridade, o livro tem sido imensamente criticado desde que foi publicado. E ainda em 2015 a New Yorker publicou um extenso texto a tentar explicar o que há de errado com o livro, acertando, na minha opinião, em muitos dos problemas do texto, nomeadamente dos valores defendidos no mesmo.

Começando pelo único ponto positivo, a premissa. “Walden” tem uma premissa atrativa, alguém que se cansou de viver a vida desenfreada em sociedade e decide retirar-se para o meio da floresta, viver isolado e sozinho, apenas com a natureza, dependendo desta para sobreviver, evitando qualquer contato ou dependência de outros humanos. A atratividade desta ideia assenta na tentativa de se chegar à essência do que somos, do que nos define, de nos encontrarmos sem depender tanto dos espelhos que são os nossos pares. Assim como da separação da materialidade, da recusa da dependência dessa, vivendo o mais natural possível, objetivando voltar ao estado mais natural possível.

Contendo algo de positivo, visto pelos olhos de Thoreau tudo isto se transforma no seu oposto. Ou seja, Thoreau assume esta visão de modo extremista, radicalizando completamente a sua posição e a do mundo que o rodeia. O discurso segue atacando todos os que o rodeiam, separando-se deles, assumindo-se como o único ser que importa à face da terra. Autocentrado, inicia uma aventura tresloucada para quem nada já faz sentido desde o próprio ato de comer e beber à educação ou trabalho. O idealismo segue atrás da frugalidade e austeridade total, em nome de não se sabe o quê. Tudo isto está em parte na base do tal transcendentalismo, o ir além daquilo que somos pela supressão das necessidades, nomeadamente das do corpo, visto como mero envelope de uma alma que se quer pura. Não fosse todo o discurso de Thoreau pontuado por toda uma arrogância, pedantismo e orgulho e talvez se pudesse aceitar.

O primeiro capítulo, o maior do livro e dedicado à economia, ou modo como sobreviver em termos financeiros, é de uma sobranceira impressionante. Thoreau, filho de industriais, educado em Harvard, apresenta-se como especialista em matéria de sobrevivência, desdenhando do conhecimento e das imensas dificuldades que sofrem quem habita e vive apenas daquilo que a terra oferece, acabando por sobreviver ele próprio muito à custa das ajudas de todas essas pessoas. Um discurso típico de quem alimenta ideias, sem nunca ter de verdadeiramente que se suportar nelas. Isto é algo a que ainda hoje podemos assistir, a idealização do regresso à terra e à agricultura, como se essas vidas pudessem ser vividas apenas aos sábados com sol, esquecendo toda a dureza das condições de quem faz disso vida.

Este transcendentalismo tem algumas relações com o hinduísmo, contudo torna-se inaceitável quando filtrado por uma enorme falta de humildade. A visão critica dos outros torna inaceitável tudo o que tenha para nos dizer. Tudo se torna ainda mais ridículo quando nada do que se vai dizendo assenta em qualquer trabalho de análise metódico, já para não referir científico já que nem sequer religioso, mas apenas e só individual e subjetivo. Se muitos optam por ver nesta abordagem de Thoreau, o rechaçar de tudo e todos, um ideal de desobediência, eu vejo antes um ideal de arrogância. Eu vejo a antítese da célebre frase de John Donne “Nenhum homem é uma ilha”.

Por fim, apesar de escrito de modo bastante eloquente, o discurso está carregado de metáforas simbólicas que conduzem o texto muitas vezes a fugir da prosa para um registo mais poético. Esta forma não advém das competências estilísticas do autor, mas antes das raízes das formas românticas que permearam muito do que definiria o transcendentalismo. Contudo não é em si um texto de grande beleza, menos ainda quando dotado de um conteúdo assente no idealismo e egoísmo de Thoreau.

terça-feira, abril 04, 2017

"Sapiens", porque dominamos o planeta?

Sapiens: A Brief History of Humankind” conta a história da nossa espécie, focando-se sobre o modo como passámos de presas a predadores e nos tornámos na espécie dominante. Yuval Noah Harari parte da sua disciplina base, a História, à qual acopla as restantes ciências sociais — Comunicação, Sociologia, Psicologia, Economia e Geografia — tudo estruturado por uma lógica Evolucionista. O resultado é uma obra de divulgação de ciência dotada de enorme retórica e alcance conceptual, capaz de colocar Harari ao nível de Carl Sagan, David Deutsch, Jared Diamond, Stephen Hawking ou Richard Dawkins.


Bastam as primeiras páginas para percebermos que estamos perante um texto distinto, no qual Harari define desde logo três momentos chave no seu enquadramento sobre o modo como a espécie humana transformou por completo a sua presença no planeta: a Revolução Cognitiva (70,000 anos a.c.); a Revolução Agrícola (10,000 anos a.c.); e a Revolução Científica (1500 d.c.). Harari foca todo o historiar a partir da primeira revolução, contando a nossa história ao longo destes 70 mil anos, numas breves 400 páginas.

Assim, até à Revolução Cognitiva, seríamos uma espécie como as outras, indefesa e presa fácil. A partir deste momento, passámos a contar com a Linguagem e com a Comunicação que iriam suportar a cooperação em larga-escala, permitindo-nos começar a trabalhar em grupos, comunidades, tribos e depois nações, ou seja, permitiu-nos organizar-nos e sair de África para conquistar todo o planeta. A partir deste ponto, o nervo central da nossa história deixa de ser a Biologia e passa a ser a Cultura por nós produzida. Nestes 70 mil anos, biologicamente falando pouco mudámos enquanto Sapiens, já culturalmente nada mais fizemos do que mudar.

A Revolução Agrícola apresentada por Harari não traz muito de novo, tendo em conta que Jared Diamond praticamente esgotou o tema nas suas obras, ainda assim existe espaço para a primeira grande provocação deste livro: terá sido um erro? Tendo em conta os níveis de felicidade humana, Harari questiona se não nos teremos tornado mais infelizes, ao deixar-nos sedentarizar e escravizar pelo trabalho duro e pesado da agricultura, tudo em nome de mais conforto. A questão tem provocado imensa discussão, não vou tomar partido, assumo antes um conceito criado por K. Kelly há uns anos, o da “inevitabilidade tecnológica”, e que Harari quase aflora, e que nos diz que somos de certo modo impulsionados pela tecnologia, enquanto parte da cultura, a inventar e a inovar. Deste modo não adianta muito questionar se terá sido um erro, já que dificilmente se pode ver como uma escolha da espécie.

Ambas as revoluções foram fruto de uma tecnologia base da comunicação, o ato de contar histórias que sustenta os mitos e as religiões. Foi através deste que pudemos criar imaginários coletivos, capazes de produzir crença e assim solidificar a colaboração na base da confiança uns nos outros. Contudo a uma determinada altura, os mitos e as religiões estagnariam o progresso, nomeadamente pelo seu distanciamento cada vez maior da realidade. Basta olhar para os séculos da idade medieval e o seu resultado em Inquisições religiosas. E é aí que Harari coloca a última revolução, a científica, que transformaria por completo o imaginário e impulsionaria avanços na capacitação da espécie, que antes nunca teriam sido sequer sonhados.

Harari é fortemente dotado na retórica pela narrativa, usa recorrentemente pequenas histórias, que polvilha com imensos factos, e afirma sem dúvidas, o que tem a dizer. Ou seja, partindo do pressuposto que as estruturas narrativas da nossa História são meramente especulativas, Harari faz aquilo que Sagan fazia, assume a sua escolha, e conta a sua história, como se da verdade absoluta se tratasse. Isto é problemático em termos científicos, mas por outro lado, é fundamental em divulgação científica. Não seria possível escrever um livro sobre 70 mil anos de história, se se ponderassem todos os caminhos e variáveis possíveis. O que Harari faz é contar a história, segundo pressupostos lógicos, fundamentados em processos dedutivos, assentes em grandes marcos teóricos.

Um desses marcos é o Evolucionismo. Toda a História de Harari se distancia do mero relatar de factos, da mera exposição do que terá acontecido, já que este se concentra antes em explicar porque aconteceu assim. E fá-lo munido de um grande conjunto de dados provenientes de uma série de disciplinas distintas. Ora o evolucionismo, apesar da sua problemática (não ser testável experimentalmente), acaba por funcionar muitíssimo bem em todo este trabalho, tal como já tinha acontecido com Dutton em “The Art Intinct”. Porque o evolucionismo contribui com um quadro teórico que sustenta um conjunto de preceitos lógicos e respondem de modo científico, ainda que teorizante, a questões que até aqui se enquadrariam no reino do mero mito.

Nesta senda Harari vai acabar por re-rotular muito daquilo que conhecemos, nomeadamente transformando todos os sistemas políticos — comunismo, capitalismo, socialismo, etc. — em religiões substitutas, no sentido em que passaram a ser estas quem dita as nossas condutas. Pelo meio Harari apresenta amiúde rasgos interpretativos soberbos, não totalmente deslocados de outros teóricos especulativos, nomeadamente no campo dos Estudos Culturais. Aproveito para deixar alguns desses rasgos:

Imaginário: Consumismo Romântico
“Even what people take to be their most personal desires are usually programmed by the imagined order. Let’s consider, for example, the popular desire to take a holiday abroad. There is nothing natural or obvious about this. A chimpanzee alpha male would never think of using his power in order to go on holiday into the territory of a neighbouring chimpanzee band. The elite of ancient Egypt spent their fortunes building pyramids and having their corpses mummified, but none of them thought of going shopping in Babylon or taking a skiing holiday in Phoenicia. People today spend a great deal of money on holidays abroad because they are true believers in the myths of romantic consumerism.”
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“Romanticism tells us that in order to make the most of our human potential we must have as many different experiences as we can. ”
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“Consumerism tells us that in order to be happy we must consume as many products and services as possible.”
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“Romanticism, which encourages variety, meshes perfectly with consumerism. Their marriage has given birth to the infinite ‘market of experiences’, on which the modern tourism industry is founded. The tourism industry does not sell flight tickets and hotel bedrooms. It sells experiences.”
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“Like the elite of ancient Egypt, most people in most cultures dedicate their lives to building pyramids. Only the names, shapes and sizes of these pyramids change from one culture to the other. They may take the form, for example, of a suburban cottage with a swimming pool and an evergreen lawn, or a gleaming penthouse with an enviable view. Few question the myths that cause us to desire the pyramid in the first place.”
Imaginário: Capitalismo
“Contrary to Aristotle, there is no known biological difference between slaves and free people. Human laws and norms have turned some people into slaves and others into masters. (..) 
Most people claim that their social hierarchy is natural and just, while those of other societies are based on false and ridiculous criteria. Modern Westerners are taught to scoff at the idea of racial hierarchy. They are shocked by laws prohibiting blacks to live in white neighbourhoods, or to study in white schools, or to be treated in white hospitals.
But the hierarchy of rich and poor – which mandates that rich people live in separate and more luxurious neighbourhoods, study in separate and more prestigious schools, and receive medical treatment in separate and better-equipped facilities – seems perfectly sensible to many Americans and Europeans. Yet it’s a proven fact that most rich people are rich for the simple reason that they were born into a rich family, while most poor people will remain poor throughout their lives simply because they were born into a poor family.”
Imaginário: A Felicidade
“What good was the French Revolution? If people did not become any happier, then what was the point of all that chaos, fear, blood and war? Biologists would never have stormed the Bastille. People think that this political revolution or that social reform will make them happy, but their biochemistry tricks them time and again.” 
“There is only one historical development that has real significance. Today, when we finally realise that the keys to happiness are in the hands of our biochemical system, we can stop wasting our time on politics and social reforms, putsches and ideologies, and focus instead on the only thing that can make us truly happy: manipulating our biochemistry. If we invest billions in understanding our brain chemistry and developing appropriate treatments, we can make people far happier than ever before, without any need of revolutions. Prozac, for example, does not change regimes, but by raising serotonin levels it lifts people out of their depression. Nothing captures the biological argument better than the famous New Age slogan: ‘Happiness Begins Within.’ Money, social status, plastic surgery, beautiful houses, powerful positions – none of these will bring you happiness. Lasting happiness comes only from serotonin, dopamine and oxytocin.”
Sim, ele está a falar de uma espécie de Soma do “Admirável Mundo Novo”. Mas a seguir diz,
“the findings demonstrate that happiness is not the surplus of pleasant over unpleasant moments. Rather, happiness consists in seeing one’s life in its entirety as meaningful and worthwhile. There is an important cognitive and ethical component to happiness (..) “As Nietzsche put it, if you have a why to live, you can bear almost any how. (..) “Though people in all cultures and eras have felt the same type of pleasures and pains, the meaning they have ascribed to their experiences has probably varied widely (..) medieval people certainly had it rough. However, if they believed the promise of everlasting bliss in the afterlife, they may well have viewed their lives as far more meaningful and worthwhile than modern secular people, who in the long term can expect nothing but complete and meaningless oblivion” 
“So our medieval ancestors were happy because they found meaning to life in collective delusions about the afterlife? Yes. As long as nobody punctured their fantasies, why shouldn’t they? As far as we can tell, from a purely scientific viewpoint, human life has absolutely no meaning. Humans are the outcome of blind evolutionary processes that operate without goal or purpose. Our actions are not part of some divine cosmic plan, and if planet Earth were to blow up tomorrow morning, the universe would probably keep going about its business as usual. As far as we can tell at this point, human subjectivity would not be missed. Hence any meaning that people ascribe to their lives is just a delusion.” 
“If happiness is based on feeling pleasant sensations, then in order to be happier we need to re-engineer our biochemical system.”

“If happiness is based on feeling that life is meaningful, then in order to be happier we need to delude ourselves more effectively.”  
“Is there a third alternative?”

Terão de ler o livro para saber se existe essa terceira alternativa. Resumindo, o mais relevante é como Harari acaba a demonstrar com estes imaginários, o quão somos feitos de ilusões (e não parece estar sozinho a julgar pela última entrevista de Dennett) e o quão frágeis, efémeros e inconstantes somos por oposição a todo nosso escafandro biológico. No último capítulo Harari leva a especulação para o futuro e mostra-nos um possível novo mundo no qual a espécie sapiens desaparece para dar lugar a uma espécie de neo-sapiens. Seremos outros, alterados externamente com próteses computacionais, assim como transformados biologicamente a nível celular e de DNA. É verdade que Harari parece apresentar um discurso algo pessimista, mais ainda quando comparado ao otimismo quase exacerbado de David Deutsch. Mas não deixa de ser um discurso realista, lógico e pela sua enorme eloquência imensamente atrativo.

A propósito da data de publicação. O livro foi publicado pela primeira vez em hebreu em 2011, apesar de Harari dominar o inglês, uma vez que se doutorou em Oxford, o que demonstra que se podem publicar grandes obras noutras línguas que não o inglês. É claro que a obra só se tornaria mundialmente famosa quando foi traduzida para inglês em 2014. Mas não tenhamos ilusões, não foi o inglês a razão do seu sucesso, mas o facto de pessoas famosas e poderosas como Obama, Bill Gates ou Zuckerberg o terem recomendado. Entretanto está já também traduzida para português pela Vogais, desde 2015.

Por último, e interessante mais para académicos, é o modo como surgiu o livro, depois de Harari ter sido obrigado a dar uma cadeira que não era a sua especialidade, História Mundial, sendo ele especialista em História Militar Medieval. Interessante porque mostra como os riscos da mudança implicam a criação de novo. Como também, se estivermos abertos a novas experiências poderemos encontrar novas razões, novos mitos para nos manter a sonhar a vida.

domingo, abril 02, 2017

“Dentes Brancos” (2000), o poder do símbolo

“Dentes Brancos” é uma obra poderosa, carregada de significados impossíveis de decifrar numa única passagem. É uma obra imensamente rica porque pede não mera reflexão mas diálogo em busca dos significados pretendidos e dos que cada um de nós leu, interpretou e sentiu. Mas não sendo eu grande fã de simbolismos, ou melhor das ultrainterpretações a que dão azo, tenho de dizer que aquilo que primeiro me seduziu em Zadie Smith foi a sua escrita, que Quinn muito bem definiu no New York Times como: “exuberante pirotecnia verbal”.


Pela sua qualidade estilística Zadie está na, minha, galeria de escritores ao lado de Jonathan Franzen e Philip Roth, embora para a maioria da imprensa esteja ao lado de Salman Rushdie. Impressionando, impacta verdadeiramente quando percebemos que “Dentes Brancos“, primeira obra, foi publicada em Janeiro de 2000, quando tinha 24 anos, e segue quando descobrimos que esta surge de um primeiro manuscrito datado de 1997, com 21 anos, que lhe valeu um contrato em redor das 250,000 libras. A idade impressiona, e houve quem qualificasse Zadie como uma daquelas crianças hiperativas que se revela cedo demais, correndo o risco de se perder no futuro, mas em 2017 sabemos que tal profecia não se concretizou, Zadie publicou desde então mais 4 romances, um dos quais, “Uma Questão de Beleza”, sobre o qual já aqui dei conta. Impressiona-me particularmente já que Zadie nasceu um ano depois de mim, o que me dá uma perspectiva muito próxima do que terá sido necessário para atingir este nível. Zadie é talento em bruto, mas não chega, o qualificativo de hiperatividade não é descabido, já que foi preciso investir muito do seu tempo em leitura, em introspeção e escrita. Produzir um texto desta magnitude com vinte e poucos anos não está ao alcance de muitos de nós, pode faltar talento mas falta acima de tudo o amor e a dedicação que Zadie depositou na literatura.

Zadie Smith

Em termos temáticos Zadie usa “Dentes Brancos” para ir ao fundo das complexidades familiares, raciais, colonizadoras e culturais da Inglaterra contemporânea. E se o livro terá impactado em 2000, o Brexit em 2017 veio tornar ainda mais relevante tudo o que nele se discute. Temos numa mesma narrativa, mais de 150 anos de história, três gerações e várias ex-colónias britânicas. A Jamaica, o Bangladesh e a Índia são chamados para a mesa inglesa, e o diálogo torna-se explosivo, multicolorido, dando a conhecer a essência da multiculturalidade. Zadie introduz temas como a 2ª Guerra Mundial, a eugenia, as religiões, a ciência, o livre-arbítrio, o suicídio, colocando toda uma constelação de personagens a questionar o propósito da vida. O propósito é aquilo que torna o resumo do livro tão difícil e os personagens tão diversos e realistas podem afastar-nos, mas Zadie usa uma forma inteligente de nos aproximar de tudo e todos, o "humor sério". Não sendo eu grande apreciador de comédia tenho de dizer que ri, gargalhadas espontâneas, imensas vezes ao longo da leitura, com o modo como tratando assuntos sérios e complexos, os personagens, cada um dotado das suas lógicas e crenças culturais, questionam o mundo.

Todas estas temáticas só são possíveis pelo contexto que envolve Zadie, as suas raízes. Filha de mãe negra, imigrada em 1969 da Jamaica para Inglaterra, e de pai branco britânico, em segundo casamento. Com dois meios-irmãos e dois irmãos mais novos, e uma adolescência marcada pelo divórcio dos pais, que a levou a mudar o seu nome original, de Sadie para Zadie. Este contexto parece ter servido de ebulição à criatividade que viria a demonstrar na universidade, no King's College em Cambridge, onde daria nas vistas com pequenos contos, e conseguiria então captar o interesse para um contrato de primeira obra.

Voltando ao início, o livro está carregado de símbolos. Não são necessários decifrar para se compreender a história, para se sentir prazer na leitura, mas instigam-nos a ir mais fundo, assim como separam o livro do mero historiar de aventuras familiares de raças diferentes. Elevam o sentido da leitura e explicam porque a literatura continua tão relevante enquanto arte, já que consegue não apenas fazer-nos passar bons momentos, mas ao mesmo tempo ensinar-nos, contribuindo para o edificar da nossa base civilizacional.

E assim, mesmo não sendo particularmente fã da ultrainterpretação simbólica, não quero deixar de destacar aqui o sentido do título da obra. Como disse, existe muito mais nas páginas do livro, tal como o RatoFuturo, o KEVIN, ou o Dr. Doença, que poderiam por si dar origem a páginas e páginas de reflexões, e que terão já dado múltiplas teses de mestrado. Mas porquê “Dentes Brancos”? Tenho de confessar que as ideias que passo a explorar não são originariamente minhas, surgiram de várias leituras (ligações: ab, cd, e), que me permitiram por via da confrontação de ideias, chegar uma interpretação que satisfez a minha leitura e o meu mundo.

Os “Dentes Brancos” surgem ao longo do livro várias vezes, mas sem conotações concretas, do impacto visual dos seus estragos (uma personagem não tem todos os dentes da frente), contrastando-se com o excessivo cuidado na sua limpeza (um dos personagens lava os dentes 5 a 6 vezes por dia). Como se os dentes tivessem uma relevância de classe, capaz de marcar a diferença de cultura e até de raça. Contudo, o mais significativo não surge nas páginas, temos de chegar lá por analogia, pela construção discursiva que nos une. Sendo um texto defensor do multiculturalismo, o que costumamos dizer é que a cor da pele na conta porque debaixo da mesma, corre o mesmo sangue vermelho. Ora dentro das nossas bocas estão também os mesmos dentes brancos, iguais para todos mas ao mesmo tempo diferentes, tão diferentes que são usados para identificar os restos mortais de corpos muito deteriorados. Ou seja, na igualdade podemos encontrar a diferença, e juntas contribuem para definir aquilo que somos. Não somos apenas iguais nem apenas diferentes, somos singulares, e por isso é fundamental preservar e acarinhar as raízes, as mesmas que garantem o branco dos nossos dentes.

sábado, abril 01, 2017

Guerrilheiros do Sofá

Nos últimos anos habituamo-nos a classificar as pessoas que se dedicam a comentar online como meros militantes de sofá, os que "falam falam, mas não os vemos fazer nada". Contudo dois eventos obrigaram-nos a repensar tudo isto, o Brexit e Trump, ou um outro menos mainstream mas igualmente problemático deste ponto de vista, o Gamergate. De repente, as pessoas que estavam sentadas por detrás dos ecrãs a emitir comentários dia e noite passaram a contar. Aquilo que dizem, por meio da liberdade de expressão que nós, sociedade, lhes concedemos, produz efeitos a partir do momento em que convence outras pessoas a pensar como elas.




O documentarista Kyrre Lien passou três anos atrás de 21 pessoas, espalhadas pelo mundo, que investem horas e horas online a comentar tudo de forma militante e chamou ao projeto: The Internet Warriors. O The Guardian selecionou 10 dos entrevistados e realizou uma montagem que agora nos dá a ver. Um dos entrevistados produziu mais de 170 mil tweets, e a maioria usa a ferramenta como "instrumento de trabalho", mas facilmente podemos extrapolar o que aqui está em questão para outras plataformas sociais, nomeadamente as caixas de comentário dos jornais. Nos depoimentos recolhidos temos pessoas que reclamam nas mais variadas frentes: Governo, Políticos, União Europeia, Muçulmanos, Israel, Obama ou Lady Gaga. Lien queria saber se estas pessoas se comportariam da mesma forma quando filmadas, quando retiradas debaixo da capa do anonimato. O resultado é poderoso e mostra bem como estas não estão simplesmente a brincar ou a passar o tempo, são seres humanos que acreditam honestamente em tudo o que dizem online.

Para mim, a questão central não é reconhecer ou proibir estes indivíduos de se exprimirem, mas compreender os mecanismos que os conduzem a pensar como pensam, e compreender porque são eles capazes de convencer outros indivíduos a pensar como eles. Para tal temos de ir à essência do que está aqui em causa, as duas emoções base que unem todos os entrevistados: o ódio e a raiva. Todos se sentem mal, todos acreditam que algo lhes está a ser vedado ou retirado. Sentem-se vítimas, oprimidos por algo ou alguém, seja o governo, um grupo ou uma religião. E por isso reagem com raiva que acaba por se transformar em ódio à medida que vão percebendo que as suas exigências não são cumpridas.

"The Internet Warriors" (2017) de Kyrre Lien

O ser humano é feito de raiva e de desejos, cabe-nos a nós enquanto sociedade criar condições para o civilizar de cada um, e isto passa por contribuir para que cada um de nós consiga ter as ferramentas necessárias para começar por se compreender a si mesmo.

domingo, março 26, 2017

“Assassin's Creed”, o filme

Tirando o IMDB vi o filme ser trucidado em quase todo o lado, apesar de sem surpresa. Virou moda dizer que os filmes adaptados dos videojogos são maus, e por mais que se façam adaptações interessantes como “Warcraft” (2016) ou “Angry Birds” (2016), nunca serão bons suficientes. Em parte isto explica-se por uma confusão de expectativas, os críticos esperam filmes elaborados quando se fala de videojogos blockbusters, e os jogadores esperam que tudo o que viveram, ao longo de dezenas e dezenas de horas, possa surgir com ainda mais intensidade em apenas duas horas de filme.



Apesar de não querer alimentar expectativas à partida, o facto de o realizador ser Justin Kurzel deixou-me bastante interessado, mais ainda quando suportado por Michael Fassbender, Marion Cotillard e Jeremy Irons. Se tinha gostado de “Snowtown” (2011), foi com “Macbeth” (2015) que tive a certeza de estar perante um realizador relevante. O modo como capta a essência do que pretende relatar, comprime e intensifica, é excelente, mas depois como constrói o universo plástico, brilha completamente. O naturalismo de “Snowtown” com uma imagem de rudeza esbatida é impressionante, e no entanto em “Macbeth” opta por uma mudança de quase 180º, recorrendo a toda a maquinaria digital para construir um universo belo e sumptuoso de luz e textura.

Assim, “Assassin's Creed” segue em quase toda a linha “Macbeth”, desde a dupla de atores  — Michael Fassbender e Marion Cotillard — à componente visual pela cinematografia de Adam Arkapaw. Por outro lado, tanto “Macbeth” como “Assassin's Creed” são adaptações, com uma não pequena diferença, uma provém do Bardo, o que acarreta responsabilidade acrescida, mas ao mesmo tempo minora o esforço necessário para conseguir uma boa estrutura, assim como uma audiência conhecedora do contexto.

No entanto, é exatamente estrutura o que mais falta no mundo dos jogos de “Assassin's Creed”. Apesar de ter jogado todo os jogos principais da série, e ter levado cinco deles até ao final, continua a persistir um rol de dúvidas sobre o que sustenta o mundo do jogo. O melhor da série sempre foi o que se vivia dentro do Animus — as viagens ao passado, cidades e personagens históricas — sendo que a história do presente foi sempre muito pouco clara, a ponto de nos últimos jogos se tornar praticamente irrelevante. O interesse da Ubisoft em criar o filme parece ter tido um objetivo claro, esclarecer as dúvidas criadas pelos jogos.

“Assassin's Creed”, o filme, responde a essas dúvidas, torna claro quem são os Templários, quem são os Assassinos, e a importância da Maçã. Podemos argumentar que a Maçã é aqui simplificada, mas não é, é antes sintetizada à sua uma essência. Ainda que possamos objetar contra a real possibilidade do seu poder, não deixa de se apresentar como uma boa premissa. Contudo, uma premissa baseada num objeto, por mais filosófico que seja, não tem como ombrear com uma premissa baseada no íntimo do conflito humano, como acontece em “Macbeth”. A Maçã não é mais do que um Graal, e como tal, objeto de enredos de aventuras infinitos que não podem impactar verdadeiramente a condição humana. Deste modo, procurar em “Assassin’s Creed” um filme que vá além do filme blockbuster de aventuras, é ridículo. “Assassin’s Creed” é um filme de aventuras, tal como os videojogos, e enquanto tal, faz muito bem o seu papel. Por isso quando vejo análises ao filme a qualificar a história de "mero Dan Brown", só posso pensar que se enganaram na sala de cinema quando aceitaram escrever a crítica.


Kurzel consegue, mais uma vez, puxar pela sua capacidade de síntese e construir um objeto que incorpora grande parte dos traços distintivos da série de videojogos “Assassin’s Creed”, desde o parkour e realidade virtual, ao mistério e thriller, passando pelo cruzamento entre a tecnologia e a envolvente histórica, incluindo o "leap of faith", está lá tudo para quem quiser entrar no filme sem preconceitos.

Montagem, literal, de significados

Podia ser apenas mais uma animação a tentar dar vida a uma das telas do grande cânone ocidental da pintura. Podia ser apenas mais uma obra a relevar-se por conta do peso da obra trabalhada, "A Última Ceia" (1498) de Leonardo Da Vinci. Mas, "The Da Vinci Time Code" (2009) é algo diferente, a tela representada serve realmente de atrativo geral, mas o que verdadeiramente conta é a técnica, não per se, mas pelo modo como se torna expressiva.


O criador, Gil Alkabetz (1957), é professor na Filmuniversität Babelsberg Konrad Wolf (Alemanha), mas é antes disso alumni da Bezalel Academy of Art and Design (Israel), uma escola de referência no mundo da animação e que já aqui mencionei várias vezes. O design de som e música são de Alexander Zlamal, parte fundamental na edificação das ideias de Alkabetz para o modo audiovisual. Por fim, o interesse geral em redor da animação advém da potencial descoberta de novas interpretações sobre uma das obras de arte mais ultra-interpretadas da história, sendo a própria sinopse do filme a indicar isso mesmo:
"In the film “The Da Vinci Time Code” one picture is taken apart in order to create an animated film from its fragments. Different parts of this one picture, based on similar forms, allow us to discover secret movements.The people in the picture eat, dance, discuss and argue, until finally all are silenced."
Contudo, o que mais surpreende não é, de todo, o que se descobre, o que de novo se interpreta, mas antes o método que nos abre o acesso a essas novas significações. Alkabetz retalha a "A Última Ceia" em pequenas partes, coloca-as em movimento, e utiliza a técnica de montagem audiovisual para dar a ver novos mundos dentro da grande representação estática pintada. É isto que impressiona, a elevação no uso das diferentes técnicas, sem qualquer objetivo virtuoso, mas apenas em nome da expressividade, criando sentidos novos a partir de movimentos imaginados sobre elementos estáticos. O trabalho realizado assenta numa lógica de repetição e ritmo intenso que iniciando-se como mero atributo estético, imprimindo sensações no espectador, vai aos poucos ganhando forma própria, criando um mundo próprio a ponto de começar a produzir os seus próprios significados. "A Última Ceia" ganha assim uma completa nova dimensão, como que insuflada de nova atmosfera, produzida a partir de simples movimento visual e a adição de um ligeiro substrato sonoro.


"The Da Vinci Time Code", (2009), Gil Alkabetz

quarta-feira, março 22, 2017

“O Idiota” (1868)

“O Idiota” vem catalogado como uma das cinco grandes obras de Dostoiévski, mas de grande só lhe encontrei as mais de seiscentas páginas. Não me revi, nem compreendi Míchkin, assim como a narrativa é pouco coesa o que acaba servindo mal a premissa de partida que tinha muito a dar ao texto. Com análises que invariavelmente ligam Míchkin a Jesus Cristo e D. Quixote, parece-me que isso se pode encontrar apenas na premissa, sendo necessário forçar a interpretação para se poder encontrar o seu lastro na obra. O meu problema com este livro de Dostoiévski assenta em dois vetores — a história e o discurso que a suporta — que passo a explorar nos parágrafos seguintes.


A história que Dostoiévski nos quer contar assenta na idea do “Homem Ideal” — bom, honesto e altruísta — e o modo como esse homem, a existir, nunca poderia funcionar numa sociedade que é corrupta e egoísta em todas as suas dimensões. Dostoiévski terá dito que pretendia “representar um ser humano completamente belo“. É realmente isto que podemos ver na história de Jesus Cristo, é isto que podemos ver em "D. Quixote", e até podemos dizer mais recentemente em “Forrest Gump”. Mas é aqui que começa o problema, Míchkin não se parece com nenhum destes personagens. Míchkin não é nenhum idiota, mas também está longe de ser o "Homem Ideal".

Vejamos. Conhecemos Míchkin no seu regresso da Suíça onde esteve em tratamento à epilepsia. No comboio encontra companheiros russos que lhe falam de uma mulher muito bonita, Nastássia Filíppovna, por quem um deles está apaixonado. O que faz Míchkin? Primeiro deixa-se apaixonar por Nastássia apenas a partir da sua aparência, a fotografia é tudo o que lhe não sai da cabeça. E o que vai fazer depois, mesmo antes de verdadeiramente a conhecer? Vai tentar roubá-la às pessoas de quem supostamente era amigo. Quando ela lhe pergunta se deve casar com o amigo, o que diz ele?, que não, porque quer ele casar com ela. Que idiota é este afinal que depois de ter visto uma fotografia se apaixona, sem querer saber mais quem é a pessoa. Torna-se obcecado por ela, a ponto de magoar muitas outras pessoas e outras mulheres, e vive todo o livro a tentar possuí-la (ainda que não sexualmente)! Ora isto não encaixa na minha visão do Homem Ideal. As mulheres que se digladiam por Míchkin são ambas fúteis, à sua maneira, mas são estas que o cercam, é por elas que ele se interessa! Podíamos dizer que é idiota, mas como é que um idiota, se o fosse, teria tanto para filosofar habilmente sobre a vida? Como é que alguém tão desinteressado em tudo se torna obcecado por uma mulher, embora seja uma obsessão que o vai sendo, na sua inconstância.

Podemos antes dizer que Míchkin era um louco, e é por aí que o livro parece muitas vezes querer enveredar, mas até aí me perturba. Como pode Dostoiévski, que era ele próprio epilético, caracterizar alguém que sofre de epilepsia de louco, ou mesmo idiota. Sei bem que estamos no século XIX, mas custa-me ler uma caracterização destas, de alguém que sabia muito mais do que aquilo que mostra nas linhas desta obra. Mais para o final, quando a loucura começa a tomar conta do texto, surge a referência a “Madame Bovary”, mas Bovary além de ser mulher, e de carregar esse fardo numa sociedade completamente dominada por homens, tinha várias motivações para chegar ao estado a que chega. E aqui, é a epilepsia?

Não me parece. E a prova surge nos cadernos que Dostoiévski foi escrevendo à medida que foi desenvolvendo o romance, e que mostram de onde vêm a maior parte dos problemas de que aqui falo,  as inconsistências. A escritora A. Susan Byatt que adora o livro, não deixa de lhe apontar criticas e numa parte da sua análise diz o seguinte:
“Anna [mulher de Dostoiévski] preservou os cadernos de notas, que mostram como tanto o enredo como os personagens estavam num estado fluído e num caos vulcânico, mesmo na altura em que o livro já estava a ser publicado como seriado. O bom príncipe aparece nas notas iniciais como orgulhoso e demoníaco, e como o violador da sua irmã adotada (que seria um protótipo de Nastássia Filíppovna). Bota fogo de forma criminosa e mata a própria esposa. Esta primeira parte, como parece, deveria ter sido poderosa. Mas Dostoiévski parecia não ter ideias muito claras sobre como proceder. A segunda parte seria fantasmagórica e divagante, sem estrutura mas agilmente enérgica.” A. S. Byatt, 2004, in The Guardian 
Este parágrafo explica todos os meus problemas com o “O Idiota”. As inconsistências e o personagem estão explicados, assim como a própria Nastássia ganha uma nova consistência, com a colagem a uma potencial ideia de paixão pela irmã. Ou seja, todo o livro parece ter nascido de uma ideia com traços profundamente góticos, dos quais ainda existem alguns resquícios mais para o final do livro. A uma determinada altura começamos a sentir a fantasmagoria, por vários momentos pensei mesmo que os personagens não existissem, fossem fantasmas, ou invenções das alucinações da cabeça do Príncipe. E em parte foi isso que me levou até ao final do livro. No meio de tanta insanidade e de um final do mais puro gótico que li nos temos recentes, esperava encontrar, até à última linha, uma qualquer explicação paranormal para tudo aquilo que Míchkin representava. Mas não, nada.

No final fiquei imensamente desconsolado. O que mais recordo da obra são personagens constantemente a entrar e a sair de cena, com mexericos atrás de mexericos, rumores atrás de rumores, diz que disse. Os personagens parecem estar todos a olhar uns para os outros à espera de algo, mas nunca nada chega a acontecer, nem se espera que aconteça. Vamos seguindo e vendo o Príncipe vaguear sem rumo, sem interesse por nada. Mesmo quando se lembra de Nastássia, logo a seguir já a esqueceu. E depois, de 100 em 100 páginas, aparece um diálogo mais profundo, com alguma discussão filosófica até interessante, mas que surge de modo extemporâneo em relação ao restante texto. Não, não o vejo como um grande livro, vejo-o como uma manta de retalhos, e ainda que alguns desses retalhos apresentem grande qualidade, não chegam para fazer uma grande obra. Pelo menos para mim não chegou.

"Strange Beasts": Uma app para o futuro próximo?

Fantástica curta, ou talvez reportagem, ou ainda anúncio! O melhor será mesmo caracterizar de mockumentary, já que é um pouco de tudo, ou talvez bastasse dizer que é um trabalho do género "Black Mirror", fica tudo mais claro! Mas não é por isso que o trago aqui, embora também, é pelo seu conteúdo, o que tem para nos dizer ou melhor questionar, seguido da belíssima execução, tanto discursiva como plástica.




"Strange Beasts" foi criada por Magali Barbe, uma especialista em VFx baseada em Londres, que tem no seu CV trabalhos pela Passion Pictures, Framestore e TheMill, o que só por si garante à priori um trabalho de topo. Mas como disse acima, não é apenas a execução plástica que é deliciosa, o discurso narrativo é modelado de forma brilhante. Desde o momento em que somos introduzidos ao universo, ao momento em que nos despedimos, a crença é completa em tudo o que se apresenta, porque o storytelling é absolutamente perfeito no ritmo, na causalidade, na verossimilidade e familiaridade. Barbe usa os diferentes discursos do storytelling para nos envolver, focar a atenção e criar o modo de humor próprio, para depois nos tirar o tapete. Belíssima execução.

Quanto ao que se discute no filme, não quero entrar em pormenores, já que vos estragaria a surpresa. Mas que não vos deixará indiferentes, disso não tenho dúvidas. As questões despoletadas são absolutamente centrais em face da realidade que a tecnologia atual nos providencia.

"Strange Beasts" (2017) de Magali Barbé

domingo, março 19, 2017

“Breaking Bad - O Filme”

5 anos em exibição, de 2008 a 2013, resultaram em 5 temporadas, 62 episódios, 48 horas contínuas de filme. Em 2017 podemos finalmente ter acesso a toda a saga de “Breaking Bad” por meio de um filme que totaliza apenas duas horas e sete minutos. Se se pode dizer que a experiência é igual? Não, é totalmente impossível, mas permitiu-me conhecer a história completa depois de ter desistido no 3ª episódio.




Dois franceses, Gaylor Morestin (designer gráfico) e Lucas Stoll (realizador), resolveram dedicar grande parte do seu tempo livre, ao longo de dois anos, para criar um filme completo a partir das 48 horas de série, que conseguisse conter a nata da narrativa e da experiência de “Breaking Bad”. É um trabalho insano, pelas múltiplas linhas narrativas presentes na série e a multiplicidade de personagens, pelas temporadas filmadas com diferentes realizadores, pela variação de recursos de produção, do guarda-roupa e da maquilhagem. Mas também porque trata-se de recriar algo a partir do que existe apenas, sem hipótese de filmar o que quer que seja para dar conta de aspetos menos claros.

No final das duas horas posso dizer que compreendi a razão do sucesso da série, compreendi o que a tornou tão relevante, consegui gizar os traços gerais dos personagens e conflitos, mas tenho perfeita noção que passei ao lado de muito daquilo que gera a verdadeira experiência de “Breaking Bad”. O filme cria a sensação de estarmos a ver detrás de alguém, captando apenas partes do que vai acontecendo, dando sentindo ao todo, mas percebendo que nos falta contexto, que cada conflito aparece e desaparece sem chegarmos a compreender a essência do seu desenvolvimento.

“Breaking Bad - O Filme” é uma obra interessante para quem viu a série e quer agora rever os momentos altos, pode servir a quem como eu nunca viu, mas saiba que tem de se comprometer em aceitar que ver o filme não é o mesmo que ver a série. Que a experiência que vai viver, não é aquela que foi pensada por quem criou a série. A experiência está adulterada, funciona, mas não oferece o pleno. Serve para conhecer a história, para compreender o fenómeno e apaziguar as ânsias de quem não quer dedicar 48 horas a conhecer o universo da série.

Para ver o filme precisam de procurar no submundo da web, já que a Sony fez o favor de mandar retirar o trabalho do Vimeo e do YouTube, apesar de catalogado como Fair Use. Por antecipar isso mesmo, fiz download do mesmo no dia em que saiu, contudo deixo um link para quem não se importar de ver online.

sábado, março 18, 2017

“The Undoing Project”, 12/2016

O novo livro de Michael Lewis, autor do enorme sucesso “Moneyball” (2003) passado a filme homónimo em 2011 com Brad Pitt, é uma montanha russa de emoções. Usando como tema de fundo a amizade entre dois cientistas que revolucionaram a psicologia, Lewis leva-nos a conhecer o duo, dando conta de toda a sua genialidade sem descurar todas as fragilidades humanas. As páginas viram-se por si porque Lewis conta como poucos sabem contar uma boa história. É verdade que embeleza, que temos de ir colocando algum sal nos heroísmos, sonhos e facilidades que tão a jeito se colocam para nos lançar nos turbilhões emocionais, mas isso faz parte da arte do storytelling. Lewis não é um historiador, não está à procura da certeza absoluta, nem da total evidência daquilo que diz, Lewis é um contador de histórias, e usa toda a sua arte para nos inebriar e interessar pelo mundo da investigação científica.

Amos Tverski e Daniel Kahneman, nos anos 1970

Daniel Kahneman tem hoje 83 anos, fugiu, com a sua família de Paris, ao Holocausto e chegou a Israel em 1946. Licenciou-se, com um major em Psicologia e um minor em Matemática, praticou psicologia e aprendeu a arte da investigação nas forças armadas israelitas. Nos anos 1960 iniciou o seu trabalho científico de fundo com um outro psicólogo matemático, Amos Tverski. Juntos, de Israel à Ivy League americana, transformariam a Psicologia e em consequência a Economia, levando ao desenvolvimento de uma área científica totalmente nova, a Economia Comportamental. Tverski morria de cancro em 1996 deixando Kahneman sozinho para receber o Prémio Nobel de Economia em 2002. Esta é a história que nos conta Michael Lewis, e que pelos ingredientes facilmente se poderá depreender que não faltam conflitos, medos e alegrias para criar interesse na leitura.


Apesar de acreditar no livro como um excelente relato de proezas científicas, preenchido por uma boa componente humana que lhe confere grande empatia, recomendaria a qualquer leitor, se quiser extrair o máximo desta leitura, a ler primeiro “Pensar, Depressa e Devagar” (2011). Este é o livro que Daniel Kahneman e Amos Tverski tinham decidido escrever juntos, mas só acabaria por acontecer já depois da morte de Tverski e depois do Nobel. É um livro de divulgação científica, que abre o conhecimento complexo à leitura de leigos. E é um livro que não tenho parado de recomendar e recomendar a todos, porque é um livro que muda a forma como vemos o mundo, desde logo como nos vemos a nós mesmos. Daí que compreendendo melhor o alcance do trabalho de Kahneman e Tverski e admirando-o, aumenta consideravelmente o prazer desta leitura. Em “The Undoing Project” Lewis dá conta das principais teorias desenvolvidas e sua relevância, mas é no livro de Kahneman que podem encontrar uma porta segura para se iniciarem.

De forma muito resumida, Kahneman e Tverski são responsáveis por uma mudança de 180º na forma como passámos a encarar os seres humanos, de seres racionais a seres emocionais, nomeadamente em tudo o que tem que ver com o modo como se processa a tomada de decisões. Até ao surgimento do trabalho desta dupla, os modelos dos economistas criavam previsões partindo do princípio de que os seres humanos eram profundamente racionais, que agiam baseados em conceitos probabilísticos, capazes de quantificar os ganhos e as perdas, e tomar decisões lógicas nas suas vidas. Kahneman e Tverski demonstraram que os seres humanos são tudo menos isso, que a racionalidade não está nunca separada da emocionalidade, e que existe um conjunto de processos que toldam e enviesam o modo como vemos e compreendemos o mundo.

Lewis ao longo do livro vai usar toda a psicologia da dupla para nos dar conta da história de amizade que os levou a manterem-se juntos por mais de uma década, e depois novamente na hora da morte de um deles. Lewis podia ter-se focado sobre os processos de criação em duo, algo que sabemos bem ser imensamente complexo, contudo acabou por se concentrar mais sobre a amizade entre ambos, sobre o modo como se entendiam e aceitavam, sobre o como os opostos se atraem. Lewis cria uma quase história de amor, carregada de poética, beleza e sonho, capaz de produzir uma intensa carga inspiracional em quem lê. Não poderia recomendar mais.

domingo, março 12, 2017

Switch, mais uma revolução Nintendo

2017 viu nascer não apenas uma nova consola, mas o renascer da esperança nas consolas de videojogos. Com a evolução tecnológica — aumento de processamento, sistemas cloud e novas plataformas (telemóveis, tábletes, Steam, etc.) — as consolas pareciam estar condenadas ao definhamento. Muito se escreveu sobre o seu fim, sobre a sua irrelevância. Contudo o lançamento da Nintendo Switch pôs um ponto nesta discussão, ainda que possa ser temporário, ao tornar-se na consola que mais rapidamente vendeu em mais de 30 anos. Como é que as previsões falharam tanto?



Interessa-me menos explicar o que falhou nas previsões, já que as previsões apenas existem para gáudio mediático e financeiro. As previsões tecnológicas ou outras, como nos demonstrou a astrologia, estão condenadas às regras do acaso e coincidência. Daí que conduzir as nossas expetativas na certeza de previsões seja pouco saudável e nada recomendável. Interessa-me mais perceber o que desencadeou todo este interesse nesta consola especificamente, e acima de tudo, tentar compreender o que ela representa para o meio expressivo dos videojogos. Faço-o enquanto investigador que estuda o meio, mas faço-o também enquanto mero consumidor, já que em 30 anos de historial nunca tinha comprado uma consola em pré-venda.

Começando pelo lado do consumidor. Comprei a Nintendo Switch influenciado por apenas um elemento comercial, o primeiro trailer “First Look at Nintendo Switch”. Assim que o vi, em Outubro 2016, fiquei apaixonado, e tomei a decisão de a adquirir. Pouco mais li sobre a mesma até a adquirir. Contribuíram para essa decisão vários fatores: 1) não tinha adquirido a Wii U, e com isso tinha perdido a oportunidade de jogar alguns jogos da Nintendo, vi assim na Switch a oportunidade de recuperar alguns desses jogos; 2) a saída de um novo Zelda, e o desejo de voltar ao fantástico universo de "Skyward Sword" (2011), agora num mundo completamente aberto; 3) e por último o potencial de jogabilidade demonstrado pelo trailer. Este último ponto foi decisivo porque se ligava ao meu trabalho de forma mais concreta, acabando por ser o gatilho fundamental para a compra.

A Nintendo Switch revelou-se distinta do que vi no trailer. Primeiro porque ainda falta um claro investimento em jogos que rentabilizem todo o seu potencial, muito daquele que surge no trailer, falo em concreto da jogabilidade social, assimétrica e física. Temos uma clara evolução face à Wii, porque é claramente mais social. Os dois comandos pedem de imediato dois jogadores, e com isso a construção de toda uma relação social muito mais intensa (que consegui observar diretamente cá em casa). A Wii apesar de ter esta mesma capacidade, continuava ainda muito agarrada à ideia do jogador individual, com o ecrã a marcar o centro de toda a experiência. O videojogo “1-2-Switch” abre todo um leque de experiências de jogo até aqui deixadas por explorar pelas consolas, nomeadamente todas as que secundarizam o ecrã e colocam os jogadores fisicamente no centro da ação.



Insisto no campo social, por contrapeso à Realidade Virtual, que tomou conta do mundo dos videojogos nos últimos dois anos. Os jogos, antes de serem digitais, foram sempre sociais. Os jogos só se tornaram individualizantes com a presença das máquinas, porque estas passaram a simular a existência de um outro, permitindo a gratificação de jogo a solo. O ato de jogar não é relevante sem a componente social. Podemos até jogar sozinhos algumas bolas ao cesto, mas a gratificação é efémera se não pudermos competir, ou pelo menos demonstrar as nossas competências a quem nos dê feedback. Neste sentido, a Nintendo Switch poderia chamar-se Nintendo Social, porque é um dos seus maiores atributos, porque recolocou a essência do jogo no centro da atividade, e  finalmente porque o fez remando contra toda a maré individualizante da Realidade Virtual.

Mas talvez não tivesse escrito estas linhas, se não tivesse encontrado outro fator que me marcou ainda mais na experiência desta consola, por ter superado completamente aquilo que o trailer apresentava, falo da portabilidade. Muito honestamente, do trailer não tinha compreendido que a consola era essencialmente portátil, e que a componente de sala era apenas um modo de carregamento e ligação à televisão, por isso a surpresa foi ainda maior. Ou seja, a consola no seu modo portátil está completa, na presença de todo o seu poder de processamento, apenas com um ecrã menor. Por outro lado, o processo de conexão e desconexão da televisão é imediato, automático e completo. Passar de um jogo na televisão da sala para o sofá do escritório, demora apenas o tempo de levantar de um sofá e sentar no outro. Isto não é impressionante, isto muda tudo.


Podemos dizer que a Nintendo Switch superou todas as previsões sobre o futuro das consolas porque pegou nelas e simplesmente revolucionou o conceito de consola de sala. Percebe-se também a partir do design da Switch o porquê da Nintendo ter começado a investir em jogos móveis para telemóveis e tábletes. Porque a essência do design da Switch diz-nos que as consolas como caixas grandes, fixas e inamovíveis no centro da sala terminaram mesmo. Afinal os futurólogos acertaram em parte nas suas previsões. A evolução tecnológica permitiu miniaturizar de tal modo as capacidades de processamento, que tudo aquilo que precisamos para jogar os nossos videojogos pode estar contido num simples táblete, e em breve num simples telemóvel. Mas! Se assim é, porque é que ainda precisamos de uma consola, porque precisamos de uma Switch quando temos tantos modelos de tábletes?


A Nintendo podia ter lançado apenas um táblete, mas isso nunca seria uma consola. Uma consola é um sistema de jogo dedicado. Pode até fazer tudo o que faz um táblete, mas tem de oferecer mais, e a Switch oferece. Da portabilidade entre televisão e táblete, à essência do ato de jogar que assenta numa dupla de comandos como interface entre o mundo digital e o mundo físico. Tudo isto pode tornar-se rapidamente num standard copiado por várias empresas para uso com diferentes sistemas móveis. E mesmo o leque de jogos pode rapidamente ser ultrapassado pelos milhares de criadores independentes que desenvolvem para Android ou iOS. Mas no final do dia, o que conta é quem chegou primeiro, ou melhor, quem teve a visão, quem deu liberdade à criatividade e arriscou, e isso é aquilo que a Nintendo ainda nunca parou de fazer, por isso se mantém no mercado, e enquanto assim for continuaremos a ter sempre consolas.


Declaração de interesses: A consola e os videojogos aqui discutidos foram adquiridos pelos meus próprios meios. Não tenho qualquer relação comercial com as marcas envolvidas.

sábado, março 04, 2017

Media Lab, formalismo vs. criatividade

MIT e Media Lab são hoje duas marcas da ciência. A primeira, uma Universidade em Boston, a segunda, um grande centro de investigação dessa universidade, pioneiro nos estudos que cruzam Arte e Ciência. Sendo Joi Ito o atual diretor desse mesmo Media Lab, faz de “Whiplash: How to Survive Our Faster Future” (2016) um livro obrigatório para quem quer que trabalhe no domínio. Contudo, e tendo em conta as expetativas, tenho de dizer que ficaram muito longe de se cumprir.


Joi Ito lidera o Media Lab desde 2011 mas está longe de ser uma pessoa consensual no cargo que ocupa, desde logo porque não é doutorado, tal como não é mestre, já que nem sequer licenciado é. Isto não deve ser por si só um indicador de competência, mas ser líder de um dos laboratórios de investigação mais avançados, no qual trabalham algumas das mentes mais educadas e brilhantes do planeta dá que pensar. Mas se Ito é o atual diretor deve-o a Nicholas Negroponte, o fundador do Media Lab nos anos 1980, e o seu mais carismático líder em toda a sua história. Foi ele, pessoalmente, que tudo fez para o colocar na direção. Porquê?

Grupos de Investigação do Media Lab

As razões essenciais prendem-se com a essência filosófica do Media Lab: fazer tudo aquilo que ainda ninguém fez. E não estou a falar de ter líderes sem educação formal, mas de procurar nestes líderes, diferentes visões do mundo que sirvam o objetivo de fazer diferente. Ou seja, encarregar a direção a mais um doutorado brilhante, poderia ser bom ou mau, contudo encarregar a alguém fora do sistema, habituado a edificar-se a si mesmo e a tudo o que o rodeia, poderia à partida potenciar todo um mundo de diferença e inovação, porque traria consigo formas diferentes de estar na vida.

Tenho a dizer que concordo com Negroponte, porque concordo com esta visão de que alguém capaz de vingar e chegar ao topo sem os alicerces da educação formal, só está ao alcance de alguém muito combativo, resiliente e criativo. Aliás, Ito enquadra-se na categoria do típico aluno brilhante que nunca se encaixou na formatação escolar, entrou em três licenciaturas diferentes, mas nunca se sentiu realizado e por isso desistiu de todas. Um perfil que conhecemos, e que tem como exemplo próximo Steve Jobs.

Se estas histórias fazem as delícias de muitos de nós, que vemos nestas pessoas forças da natureza, capazes de muito daquilo que nós nem imaginar conseguimos; como todas as restantes histórias, mais comuns e banais, possuem também lados menos bons. Porque ser-se muito bom em algo não pode significar ser-se bom em tudo. E assim se Steve Jobs foi fabuloso na criação e liderança de inovação da Apple, e Joi Ito foi um grande ativista de causas da sociedade de informação que o fez chegar à liderança do Media Labs, isso não fez deles grandes cientistas. O que podemos dizer de ambos, mentes enormemente criativas, sedentas de conhecimento, imparáveis na persecução de marcar a diferença, é que funcionam melhor na condução e na transmissão de conhecimento por exemplo. Jobs nunca escreveu um livro, escreveram muitos sobre ele. Ito escreveu este, e não foi sozinho, trabalhou com Jeff Howe, especialista em escrita jornalística, mas disse muito pouco, disse muito menos do que tudo aquilo que a sua visão e liderança representam.

Ou seja, a leitura de “Whiplash”, para quem não conheça o Media Lab, ou não esteja a par da história e cultura do domínio da Interação Humano-Computador, pode até contribuir como introdução às atuais abordagens dos laboratórios que trabalham na área. Contudo, para quem trabalha na área, acaba sendo uma leitura triste, porque nada de novo se diz, quando tanto se esperava de alguém que ocupa o cargo que ocupa, e tem as capacidades que tem. Soa muito curto o que está no papel, soa distante, não colam as ideais aqui plasmadas com o verdadeiro potencial de quem as proclama. E na verdade, talvez nada disto nos deva surpreender. Ito nunca se encaixou num sistema de ensino formal, Ito nunca conseguiu compreender a razão do funcionamento de um sistema com tais características, talvez porque o modo como vê o mundo seja tão diferente que acaba por o condicionar quando este tenta fazer o caminho inverso, ou seja tornar-se o professor.

sexta-feira, março 03, 2017

"Passengers", a arte de questionar

"Passengers" (2016) é uma espécie de Robinson Crusoé com duas modificações narrativas essenciais que enriquecem imensamente o seu sentido: a primeira, é o facto de que estando completamente sozinhos temos à nossa volta 5000 pessoas em modo hibernação; a segunda é que o facto de estarmos no espaço, e não numa ilha contida pelo planeta Terra, impossibilita a ideia de esperança, de se poder ser avistado e salvo por outro qualquer ser. Estas variações da ideia central, de estar sozinho, permitem ao filme lançar várias questões de grande alcance e profundidade, em termos daquilo que nos define como seres humanos.





Enquadramento: Uma nave que transporta 5000 pessoas para um outro planeta, a 120 anos de distância, sofre um problema ao fim de 30 anos, e um dos sistemas de hibernação avaria acordando um passageiro, com cerca de 30 anos, a 90 anos de distância do destino. Os sistemas na nave não permitem voltar a hibernar, por isso terá de viver o resto dos seus dias naquela nave, em trânsito, sabendo que nunca chegará vivo ao destino. E é assim que começam as questões:

1 - O que faríamos se nos encontrássemos sozinhos num mundo, rico de experiências materiais e experienciais proporcionadas pelos mais avançados sistemas digitais e robóticos de entretenimento, mas sem acesso a contacto com qualquer outro ser humano?

O filme explora a questão inicialmente, podia ter feito muito mais, mas optou por não se centrar na resposta, preferindo adicionar novas camadas de questionamento.

2 - Sabendo da existência de 5000 pessoas a dormir ali ao lado, e podendo acordar uma delas, seria ético fazê-lo? Mais ainda sabendo que essa pessoa seria privada de tudo aquilo que tinha planeado fazer ao acordar, ou seja, seria privada da SUA vida para viver a MINHA vida?

O filme não dá grandes respostas. A escolha do passageiro a acordar não é alvo de grande explicação, nem intenção, desde logo porque nem sequer é tentada qualquer comparação entre os milhares de passageiros existentes. O que só por si daria para anos de ponderação, tendo em conta que na nave existem registos vídeo, com explicações das razões de cada pessoa para ter embarcado na viagem. Aliás, as diferenças de interesses, ou de classe social apresentadas não são nunca exploradas.

3 - Mudando o foco de personagem. Se descobríssemos que a vida miserável que estamos a viver foi completamente criada pela pessoa com quem estamos a dormir, e por quem nos deixámos apaixonar, o que faríamos? 

Mais uma vez a resposta é frágil, embora aqui tenhamos de aceitar a enorme habilidade de Jon Spaihts, guionista de “Prometheus” (2012), na forma como desenha a resposta, ao passar o foco dos envolvidos para uma mais ampla responsabilização, ou seja, retirando a ênfase do Eu, passando-a para o Nós, Todos. Aceito que o filme tente uma lógica enfabulatória do Síndrome de Estocolmo, embora esta mudança de pesos de responsabilidade atenue imensamente essa leitura, criando uma multiplicidade de outras significações.

Dito tudo isto, o que sobra? As perguntas. Sim, são o melhor do filme, inegavelmente superiores às respostas. Mas o que pergunto a todos os críticos é o seguinte: existiria alguma forma de responder a estas questões? Aliás, este foi o problema apontado a "Prometheus", o que dá conta de um padrão na escrita de Spaiths, a sua capacidade para enquadrar e lançar grandes questões, não sendo depois capaz de responder à altura.

Porque toda a essência e beleza do argumento do filme assenta no desenho das perguntas. No modo como nos consegue colocar na situação, a tentar imaginar o que faria eu perante aquelas condições? Não é essa a essência de qualquer base filosófica, a capacidade de nos questionarmos? As respostas pertencem a cada um. E por isso no final do filme, apesar de todas aquelas respostas, eu dei a minha, sobre o que senti, nomeadamente sobre aquilo a que o filme me levou no questionamento daquilo que me define:
:: O contato humano. O outro. É a única coisa que conta, a única coisa sem a qual não podemos absolutamente viver. Precisamos de espelhos, precisamos de cooperar, precisamos de colaborar, precisamos de nos complementar para nos completar.
Podemos criar algoritmos, robôs, brinquedos sexuais. Podemos adicionar-lhes cognição, emoção, toque suave e quente, mas eles nunca serão humanos. Eles nunca enfrentarão a extinção da carne. Eles nunca enfrentarão dilemas morais. Eles nunca se sentirão submissos ou dominantes. Eles nunca vão sentir necessidades, desejos e urgências impossíveis de cumprir. Eles nunca estarão sozinhos.