terça-feira, maio 23, 2017

Somos aquilo que criarmos

Zen Pencils volta a dar-nos mais uma prancha de banda desenhada fascinante e inspiradora, desta vez baseada num curto texto do pianista James Rhodes. Mas se a pequena história de Rhodes nos quer fazer acordar e dar força para darmos início ao ato pessoal de criar, a sua história pessoal agita-se por debaixo do texto com uma força quase sobre-humana. Rhodes foi abusado sexualmente, enquanto criança e durante anos, tendo ficado com sequelas físicas e psicológicas profundas, referindo a música como a sua tábua de salvação. O grande pianista que hoje James Rhodes é deve-o a uma formação auto-didata, desistiu da escola de música e durante 10 anos não quis tocar, até que regressou ao instrumento.

Durante 10 anos não quis saber do piano, trabalhou numa empresa que detestava até que: “Only when the pain of not doing it got greater than the imagined pain of doing it did I somehow find the balls to pursue what I really wanted and had been obsessed by since the age of seven – to be a concert pianist.

Nesta pequena história Rhodes coloca o dedo sobre as vidas diárias que criámos nesta nossa sociedade movida por objetivos de exteriorização das conquistas, secundarizando tudo aquilo que verdadeiramente nos move interiormente. Movidos por essas ânsias esquecemos o que somos, deixamo-nos zombificar, acabando por não colocar em prática nada daquilo que somos, limitando-nos a consumir aquilo que os outros são.

Não é fácil fugir a esta espiral de demência consumista que nos arrasta com uma força muito além da nossa vontade, é preciso parar, olhar à nossa volta, e ressignificar tudo aquilo que fazemos. Criar é a primeira condição porque existimos, muitos de nós conseguem grande parte disso pela procriação, mas isso diz apenas respeito à condição biológica. Aquilo que somos também está embebido em nós por meio de cultura, e desse modo, tal como para com a biologia, temos o dever de contribuir para com a Cultura.

Leiam a prancha "Is that not worth exploring?" e enquanto isso coloquem o vídeo abaixo como música de fundo.


domingo, maio 21, 2017

A subtileza das relações humanas

É poderosa a capacidade de Cristian Mungiu de colocar no ecrã as complexidades das vidas modernas, de a partir das suas superfícies de normalidade conseguir extrair interstícios das suas fragilidades. Algo que não pode ser estranho ao facto do filme ser dirigido mas também escrito pelo próprio, mas ainda mais ao facto de Mungiu ter pensado inicialmente seguir uma carreira como escritor em vez de cineasta, tendo começado por estudar literatura e só depois cinema. "Graduation" (2016) é um grande filme que podia ter sido um grande livro. Mungiu aborda a luta da família para suceder no meio de uma sociedade que exige competências e resultados aos seus filhos, tudo permeado pela fina linha que regula a moral entre a honestidade e o ‘danem-se todos os outros’, e por um país, a Roménia, que escapou ao comunismo e procura agora edificar-se numa nova filosofia de vida capitalista.




Mungiu não é nenhum novato, já nos deu os belíssimos “4 Months, 3 Weeks and 2 Days” (2007) e “Beyond the Hills” (2012). “Graduation” (2016) é um regresso ao contemporâneo urbano, do filme de 2007, ao desatar das teias sociais e dos sentires de cada ser individual em face das injustiças e das incapacidades de lidar com as mesmas. Mungiu apresenta-nos a história de uma família que lutou para dar o melhor à sua filha única, e chegados ao final do liceu vê como único caminho possível, numa Roménia degradada, mandá-la estudar para Inglaterra. O filme vai concentrar-se sobre o casal, os seus desejos e problemas, e o modo como a corrupção ainda contamina muitos dos meandros da sociedade romena. Contudo Mungiu não faz uma crítica de cima, Mungiu leva-nos para dentro dos problemas e obriga-nos a empatizar com os personagens, a sentir o que eles sentem, e a pensar no que faríamos no lugar deles, o que torna a experiência da obra densa e muito impactante.

Christina Mungiu na rodagem de "Graduation" dando indicações aos atores.

Em termos criativos, Mungiu consegue elevar a sua expressão por meio de um texto profundo, trabalhado muito bem pela montagem da obra nas suas intensidades, fazendo com que duas horas pareçam uma, e por uma direção de atores que assume uma naturalidade impressiva, tornando completamente real o texto. No campo mais plástico, a cinematografia apesar de naturalista é trabalhada com imenso cuidado, gratificando-nos com forte saturação, o que cria um contraste entre o deslavado comunista e o desejo do novo capitalista. Tudo isto é acompanhado por uma faixa de som na qual não existe música além da diegética (no carro e em casa), mas que está sempre carregada de sonoridades ambiente, como os telefones que tocam, as pessoas que conversam entre si, os carros, as portas, tudo mexe sonoramente, dando uma ideia de vida ativa e intensa, na qual temos de nos encontrar e trilhar as nossas difíceis escolhas. Impossível não pensar em Dardenne, Haneke ou Farhadi.

É melancólico, porque é profundamente humano, é verdade que existe vida para além dos problemas que se apresentam, porque em meio à tragédia existe sempre tempo e espaço para a comédia, mas o modo como termina o filme é bastante significativo, já que torna inevitável a comparação com o cinema americano, nomeadamente o modo como são tratados estes momentos de graduação, que nos questiona ainda mais sobre a diferença de mundos, de realidades e sentires. Por tudo isto, não admira que Mungiu tenha levado de Cannes o prémio para melhor realizador por este filme.

Trailer de "Graduation" (2016)

sexta-feira, maio 19, 2017

Audiodrama animado

Uma curta de animação de estudante, realizada este ano, vem dar conta da capacidade e poder hipnótico da narração oral. Não fosse a ilustração e composição tão boas, e quase podíamos dizer que a componente visual servia apenas de suporte à voz e som, até porque no campo da animação temos apenas os mínimos.




"Winston" (2017) foi o trabalho de graduação de Aram Sarkisian na CalArts. O trabalho ainda não circulou em festivais, mas já recebeu o selo Staff Pick do Vimeo.

"Winston" (2017) de Aram Sarkisian

quarta-feira, maio 17, 2017

A saga napolitana

Elena Ferrante desenvolveu uma forma particular de escrita assente em descrições simples mas viscerais do sentir feminino. Se serve o agarrar fácil do leitor pela emocionalidade, consegue a proeza de tocar em comportamentos e motivações que descrevem com particular acuidade os desejos do leitor feminino. Ou seja, mais do que a criação de universos de sentido, de lógicas e sistemas explicativos da realidade, Ferrante foca-se na instabilidade do relacional, nas fragilidades que sustentam as ligações humanas. Para acentuar esta focagem Ferrante cria um mundo em que tudo o que se diz é desdito logo a seguir, a obra constitui-se numa oscilação constante entre o desejo e a repulsa, tornando impossível a ligação empática com os personagens, apostando mais na gratificação pela visceralidade e voyeurismo.

A saga napolitana é um romance de Elena Ferrante, constituído em 4 volumes, editados em Itália entre 2011 e 2014.

A escrita de Ferrante não se faz de floreados nem rebuscados, é muito direta, muito assente no visível no imediato, são poucas as vezes em que se permite sair do concreto, criar abstrações do real e erudizar o discurso. Por outro lado, consegue ir ao fundo da psique feminina sem rodeios nem metáforas, descrevendo o interior da mente humana como quem descreve ações externas sem complexidade. E é deste modo que agarra o nosso sentido voyeurístico de querer saber o que vai dentro de cada um daqueles personagens. A esta forma, Ferrante junta uma estrutura clássica narrativa assente no mistério e suspense, que lhe serve para ir enredando o leitor, envolvendo-o na visceralidade das ações que o mantém focado continuamente na interrogação do que vai acontecer a seguir.

Se tudo funciona na perfeição em termos voyeurísticos e viscerais, não posso dizer o mesmo no campo empático. Ou seja, enquanto leitores queremos saber mais, queremos conhecer o interior e o exterior e chegar ao que se disse, ao que se pensou, ao que se sentiu, deixar-nos levar entretidos pela fluidez descritiva que nos agarra e praticamente sufoca. Contudo, as personagens e as suas relações, por um desejo de naturalismo procuram ser imperfeitas a ponto de se tornarem inconsequentes, impedindo o leitor de se colocar na pele dos personagens, de compreende-las antecipando o seu sentir. As personagens são próximas porque se nos abrem completamente, mas distantes porque não encaixam nos nossos modelos mentais do mundo.


**** A partir daqui surgirão potenciais SPOILERS ****

Em termos temáticos temos uma saga napolitana, a história de uma comunidade de famílias de um bairro pobre de uma das cidades mais pobres de Itália, Nápoles. Dividido em quatro livros, mas fundamentalmente em duas partes, com a primeira centrada num “coming of age” de duas amigas, que trilham caminhos distintos — uma segue até à universidade, enquanto a outra tem de começar a trabalhar a partir do final da escola primária. A primeira, Lenu, limita-se a seguir as regras societais, subjuga-se ao imediato na esperança de conseguir algo melhor no futuro, enquanto a segunda, Lila, se destaca pela força interior criativa dotada pela total insubmissão. Já na segunda parte, com as amigas adultas, o “coming of age” acaba por dar lugar aos romances, e os caminhos previamente trilhados pouco ou nenhum valor parecem ter, com a promiscuidade a assumir a centralidade das vidas narradas, pondo de lado qualquer progresso civilizacional.

Tive um choque quando se deu a transição de uma parte para a outra, fui-me abaixo, passei muitos dias a pensar na saga. Questionei-me muito sobre como pôde Ferrante ter escrito uma saga que se contradiz. Uma primeira parte completamente contrária, ideologicamente, a tudo o que nos diz na segunda parte. Ao longo dos quatro livros escrevi muitas ideias, copiei muitas frases, mas nada batia certo com nada. Cheguei a escrever sobre os fundamentos neoliberais na base do discurso apresentado, a elevação do ser individual acima do colectivo. A busca desenfreada pelo direito de ser feliz e o completo desrespeito pelo outro. Realizei comparações com a saga “Corre Coelho” (1960) de Updike. Mas no final acabei por chegar ao que disse acima, de que tudo em Ferrante é imperfeito, nada é previsível e muito é inconsequente, o que acaba por configurar o seu discurso numa certa apologia do niilismo, que fica bem patente numa descrição de Lenu no último livro a propósito de Nápoles:
“o sonho do progresso sem limites é na realidade um pesadelo cheio de desumanidade e de morte” volume IV, p.297
Sendo progressista convicto, acredito que podemos progredir como seres humanos infinitamente, propulsionados pelo conhecimento de nós próprios e da ciência. Acredito que um ser humano consciente é um ser humano mais livre, mas ser mais livre, não quer dizer fazer tudo o que lhe dá na gana. Ser livre através de uma consciência do mundo quer dizer conhecer os direitos e os deveres através dos limites do mundo físico, social e psicológico em que se vive. Conhecer até onde podemos exigir que o planeta se nos ofereça, que os outros se nos ofereçam, e nós próprios nos ofereçamos, e compreender o que nos é pedido em troca por essas ofertas. Por isso não me revejo no mundo de Ferrante, nomeadamente quando diz:
“talvez as coisas tenham de ser mesmo assim com os homens: viver algum tempo connosco, fazer-nos filhos e acabou. Se fossem superficiais como Nino, ir-se-iam embora sem sentir qualquer tipo de obrigação; se fossem sérios como Pietro, não faltariam a nenhum dos seus deveres e em caso de necessidade dariam o melhor de si. De qualquer modo, o tempo das fidelidades e das vidas em comum sólidas acabara, tanto para os homens como para as mulheres.” volume IV, p.347
Acredito na condição social como condição essencial da nossa espécie. Como questão de edificação cognitiva e emotiva, porque acredito que o condicionamento social fez algo mais importante por nós, permitiu-nos descobrir a razão e passar a domesticar a emoção. A espécie que hoje somos é capaz de refrear os seus instintos animais porque aprendeu que tem mais a ganhar com isso. Porque aprendeu que se pode ser muito melhor humano se se conseguir balancear entre o seu eu e o dos outros.

É verdade que tudo isto é pedir demais a quem saiu de um bairro pobre da Europa do Sul na primeira metade do século XX. Mas era sobre isto que Ferrante nos falava durante a primeira metade, mas que acaba por fazer desaparecer por completo na segunda metade. O que me leva a questionar sobre o porquê de uma “amiga genial”? Existe mesmo algum génio aqui? Ainda assim, e contra a ponta que a autora procura atar no final da história, acabo a sentir que só Lila poderia merecer esse rótulo.

Lila não seguiu a escola porque tinha dois pais que nunca acreditaram nela. Lila começou a trabalhar desde criança. Lila tinha uma veia criativa enorme, despontada pela sede de risco, mas nunca foi ouvida por ninguém, nem a professora quis saber do seu primeiro conto ”A Fada Azul”, nem o pai quis saber dos seus modelos inovadores de sapatos. Depois disso arranjou um marido que a violou no dia de núpcias, e continuou a violar durante muito tempo. Juntou-se a um galã irresponsável que lhe fez um filho e a abandonou. Perdeu uma primeira gravidez, e penou para levar a segunda até ao fim. Fugiu sozinha com o filho nos braços, encontrou finalmente alguém que a respeitasse, mas teve de se submeter a um trabalho e um patrão imundos para sobreviver. Voltou, engravidou de novo, para acabar por perder essa filha com 4 anos…

Comparado com isto, a vida de Lenu foi um mar de facilidades. E poderia ter sido fruto dos estudos de Lenu, mas não o é. Lenu consegue o que consegue por mera sorte. A professora que convence os pais e lhe compra os livros, e a amiga que está lá sempre para a apoiar. Todos os namorados que encontra no seu caminho lhe querem bem e a tratam bem, apesar dela nunca deles gostar. A sogra abre-lhe o caminho editorial e transforma o sonho em realidade, mas ela decide ir atrás da paixoneta de adolescente que vai espezinhar todos os valores que tinha conseguido edificar. Consegue emergir novamente graças a um romance reciclado. O pai das suas filhas mais velhas continuou sempre a tratá-la bem, e a tomar conta das filhas, fazendo com que estas fossem estudar para grandes escolas. Lila não trabalharia menos que Lenu, por várias vezes consegue despontar, atingir picos, mas existe sempre algo que a puxa para baixo. Lila teve direito a todos os azares, Lenu a todas as sortes.

No final de todas as contas realizadas, aquilo que Ferrante tinha para nos dizer, com as suas tão distintas duas partes da saga, com as suas tão distintas duas personagens, é que a vida é uma roleta de casino, que por mais que a queiramos pegar pelos cornos e domá-la, ela não se verga, não se dá. E por vezes temos sorte, outras vezes temos azar. E isto acaba sendo o meu real problema com esta saga, a sua resignação, o seu niilismo que derruba qualquer tentativa de criar empatia com as personagens, porque na verdade a autora parece nada ter para dizer. Não adianta estudar, não adianta procurar um homem/mulher, não adianta construir uma família, não adianta procurar o trabalho perfeito, não adianta educar os filhos, não adianta ir atrás de amores, não adianta criar amizades, nada adianta nada. Acaba por saber a pouco. A saga napolitana acaba por ser uma mão cheia de sonhos decepada.


Uma nota final. Na comparação com "Os Dias do Abandono" (2002) sobrelevam-se dois elementos: a autenticidade e a empatia. Os discursos em ambas as obras são muito próximos — primeira-pessoa e confessional — contudo "Os Dias..." é bastante mais puro, sente-se mais a carne e o frémito. No campo das ideias, a personagem de "Os Dias..." é também bastante mais consistente, e repare-se que o é sem perder todos os contornos de imperfeição naturalista. A saga napolitana é mais trabalhada, o número de personagens, as suas teias, os seus sentires, os seus anseios, o mundo em que vive, o cenário sócio-político, é tudo muito mais amplo, muito mais rico, mas também parece a esparsos momentos ser tudo menos autêntico, mais fabricado. Fico a pensar, até que ponto esta saga não perde por Ferrante ter dado um passo maior que a perna. Ou seja, Ferrante ao longo de 15 anos, de 1992 a 2006, escreveu apenas 3 novelas, que juntas se resumem a um livro, e depois, de um momento para o outro, resolve escrever 4 livros inteiros de uma assentada em apenas 4 anos, de 2011 a 2014. Pensando sobre tudo o que li dela, e sobre o modo como diz que gosta de escrever, com pouca edição o mais próximo possível da primeira versão escrita, que estes livros teriam ganho imenso com um apurado trabalho de edição realizado após a publicação dos 4 tomos. Existem demasiadas pontas contraditórias que impedem a obra de se mostrar completamente.

sábado, maio 13, 2017

"Louder than Words" (2015)

Puro fluxo de consciência fílmico. Joachim Trier a usar a câmara como Woolf usava a caneta, para nos levar ao encontro das memórias e pensamentos de múltiplos personagens que se cruzam entre as primeira e terceira pessoas, e nos dão a conhecer um mundo humano de ideias, sentimentos e perplexidades sobre a realidade que os rodeia e lhes dá vida. Podia quase dizer-se uma efabulação do ato de estar consciente de existir.




O filme centra-se sobre uma família americana da costa este, quase-europeia, que perdeu uma mãe, fotógrafa de guerra, imensamente reconhecida. O pai que ficou com dois filhos, um adulto e um outro na pior fase da adolescência. Passados alguns anos todos parecem atravessar bem as suas existências, contudo tudo é muito parte das fachadas de que cada um se serve para continuar o seu caminho.

Trier faz um trabalho impressionante no modo como escreve o desenrolar narrativo, já que apesar do fluxo permanente de trocas entre consciências e não-consciências, o arco dramático consegue emergir, progredir e intensificar-se ao longo de todo o filme, mantendo-nos completamente absorvidos e expectantes. Contribui para a dramatização o brilhante trabalho de Huppert, assim como Byrne e Eisenberg, ao que se junta, o score de Ola Fløttum e cinematografia de Jakob Ihre, que repetem ambos a colaboração com Trier.

Como disse acima, é um filme para quem gosta de procurar compreender porque pensamos como pensamos, o que nos torna indivíduos e o que nos torna parte de um todo, mas é também um filme que fará as delícias de todos os que se interessam pela arte da fotografia, do que ela representa e espelha do nosso existir.

Ver também:
Trier e a solidão da arte

domingo, abril 30, 2017

Por que não conseguimos parar de olhar para os nossos Smartphones?

Adam Alter é doutorado em psicologia social e é professor de Marketing na NYU, o que só por si já nos diz um pouco sobre aquilo que podemos esperar encontrar nas páginas do seu mais recente livro “Irresistible: The Rise of Addictive Technology and the Business of Keeping Us Hooked” (2017). Ou seja, um trabalho de análise social e psicológica sobre as mais recentes estratégias de marketing e de design, utilizadas pelas grandes empresas tecnológicas, para agarrar os seus consumidores e mantê-los entretidos a ponto de os tornar viciados nos seus produtos. É um livro que toca sobre vários assuntos centrais do meu trabalho em design de interação e design de jogos.


O livro inicia-se com uma alargada discussão sobre a conceito do vício, sobre o modo como surgiu na história, como ganhou carga pejorativa, e como mais recentemente se veio a dividir em dois grandes ramos: comportamental e baseado em drogas. Enquanto o vício baseado em drogas está completamente estabilizado e é descrito pelos manuais de diagnóstico da psiquiatria, o vício comportamental (behavioural addiction) é ainda visto ainda como a necessitar de mais estudos. Ainda assim a variante de jogos de azar a dinheiro (gambling) foi uma das primeiras categorias a entrar nos manuais, tendo nos anos mais recentes surgido algumas evidências que levam a considerar casos como o vício: na internet, em sexo, em pornografia, comida, exercício, compras, computadores ou videojogos.

Apesar da clara separação entre o uso de drogas e os comportamentos, Alter escreve de forma um apouco atabalhoada, acabando por a certa altura parecer estar a defender que são a mesma coisa, ou seja, que em termos de efeitos e problemas poderão conduzir às mesmas situações. Isto porque Alter defende aqui que o problema da viciação, a dependência, é antes de mais um problema de contexto e auto-determinação, e menos da droga, o que me levanta muitas dúvidas. Para reforçar esta ideia avança com uma ideia, baseada num medo, que eu também tinha quando era pequeno: “As a kid I was terrified of drugs, I had a recurring nightmare that someone would force me to take heroin and that I’d become addicted”. Ao dizer isto Alter acaba por dizer que tal nunca aconteceria, porque a heroína precisa de um contexto para se tornar um vício. Para tal dá o exemplo dos combatentes  do Vietname, altamente viciados em heroína e que facilmente abandonaram o vício ao chegar aos EUA, ou seja, pela drástica mudança de contexto. Contudo, isto está longe poder ser assim simplificado. Não conheço o caso da heroína, mas conheço de outras drogas mais recentes, que são capazes de produzir dependência independentemente da vontade dos sujeitos. Sendo verdade que as mudanças de ambiente, de contexto, contribuem imenso para atenuação destes seus efeitos.

O problema do texto de Alter é que está claramente à procura de audiências. Aliás, não é por acaso que abre o livro com a discussão, já esgotada, de que os criadores de tecnologias de Silicon Valley, focando-se sobre o icónico Steve Jobs, proíbem o uso das próprias tecnologias aos seus filhos. Alter chega mesmo a dizer, o que me parece de mau tom, que os criadores de tecnologias no que toca aos seus filhos seguem a máxima dos traficantes: “never get high on your own supply”. De mau gosto, não só por brincar com as pessoas identificadas, mas porque ao esticar as ideias desta forma, acaba por ultrapassar a fronteira entre o informativo e o alarme. Se muitos dos criadores de tecnologias não colocam os filhos nas escolas mais avançadas em tecnologia, não é com certeza pelo medo de que estes desenvolvam dependências, mas é antes, e aqui sim recorrendo ao seu conhecimento tecnológico, por saberem que as crianças aprendem muito mais efetivamente com outros seres humanos do que com qualquer tecnologia.

Contudo, não é do meu interesse alongar-me aqui sobre esta discussão, já que o que me levou à leitura deste livro foi o modo como o design produz engajamento. Para tal aceitarei a definição de que o vício comportamental consiste numa compulsão para se envolver em comportamentos gratificantes, de tipo repetitivo, não relacionados com drogas, deixando de lado as questões de definição de dependência. Com isto não estou a minorar os seus efeitos, eles podem ocorrer, contudo, e tal como se pode ver pelas reticências da comunidade psiquiátrica, estão longe de se poderem considerar universais. Por outro lado, a auto-determinação terá maior eficácia quando utilizada contra um vício comportamental, como o sexo ou os jogos, do que num caso de vício numa droga, como muitos dos antidepressivos que são hoje amplamente utilizados. Mais, se assim não fosse, teríamos de esquecer tudo aquilo que escreve Alter ao longo do seu livro, já que no final do livro, esquecendo e minorando grandemente os efeitos ou capacidades da tecnologia e sua viciação, apresenta o uso controlado da Gamificação como uma potencial forma de combate dessa viciação!

Apesar de tudo isto, não quero esquecer o trabalho de Alter, e por isso mesmo me alongo a falar dele, porque julgo que a parte central do seu contributo é válido, e esse sustenta-se nos padrões, encontrados por ele na análise das tecnologias, que têm servido as grandes empresas para nos manter focados (ou viciados) nos seus produtos. E é sobre esses que me deterei agora aqui, e que são no fundo aquilo porque vale imenso a pena ler este livro. Porque tenho de concordar quando Tristan Harris, um especialista em ética do design, diz que o problema não está na falta de força de vontade das pessoas mas no facto de “there are a thousand people on the other side of the screen whose job it is to break down the self-regulation you have.

Alter apresenta então seis padrões que definem no fundo seis grandes estratégias de design: 1 - Goals, 2 - Feedback, 3 - Progress, 4 - Escalation, 5 - Cliffhanger, 6 - Social Interaction. Para complementar este trabalho aconselho vivamente a leitura de “Contagious: Why Things Catch On” (2013) Jonah Berger, no qual Berger apresenta também seis padrões, no caso de potenciação de partilha online, mas que se aproximam bastante do que aqui se discute: Moeda Social, Gatilhos, Emoção, Público, Valor Prático, Histórias. Muito provavelmente, aqui ou noutro lado, procurarei em breve estabelecer paralelos entre os padrões de Alter e Berger. Vejamos então cada uma das estratégias encontradas por Alter:


Estratégia 1 - Goals / Metas
As metas são, provavelmente, o mais eficaz modo de garantir a motivação humana em termos extrínsecos, já que recorrem a um elemento constituinte da nossa biologia, o factor de competição. Ou seja, a primeira condição do estabelecimento de uma meta assenta na comparação com os outros. Somos seres profundamente sociais, e necessitamos constantemente de nos comparar aos demais, para compreender se somos seres humanos completos. Como tal, as metas não são meros indicadores abstratos, elas representam todos os outros, e no fundo o grupo desses outros em que nós nos encaixamos. O melhor exemplo disto é dado por Alter com a análise dos comportamentos de maratonistas não se regulam apenas pelo completar dos 42 km, mas utilizam como motivador para conseguir tal feito metas de tempos. No gráfico abaixo podemos ver como as metas de 3h, 3h30, ou 4h, são usadas massivamente pelas pessoas para terminar as suas corridas. Tendo tomado a decisão de correr a maratona e preparando-se para entrar nesse grupo, começa a preocupação com saber em que sub-grupo me incluo. As metas permitem assim aos corredores, quantificar e dosear o investimento, conseguindo perto das metas ir buscar energia em si próprios que já não acreditavam existir, mas que despoletado pela adrenalina do objetivo constituído pela meta consegue chegar lá. Isso explica porque no gráfico temos tantas pessoas a terminar imediatamente antes de cada intervalo, e tão poucos imediatamente a seguir.

Tempos agregados de milhares de corredores que correram os 42km da maratona

Este pequeno exemplo, quando aplicado às tecnologias sociais que nos rodeiam, e aos videojogos, rapidamente nos fazem lembrar miríades de aplicações. Se no passado as metas serviram ao ser-humano como fundamento de sobrevivência (subir uma montanha com a meta de encontrar comida ou um novo abrigo), hoje as metas são a coroa da sociedade capitalista, que ao puxar por essas raízes biológicas de obter mais e mais, acabou por criar a sociedade mais competitiva que alguma vez conhecemos, algo que foi radicalmente acentuado com o surgimento das Tecnologias de Informação, que permitiram a criação e desenho de métricas em absolutamente tudo aquilo que hoje fazemos. Repare-se no modo obtuso como se passou a quantificar o número de amigos através do Facebook, o número de seguidores através do Twitter, o número de gostos através do Instagram, o número de passos no pedómetro da Nike. A gamificação não inventou nada, apenas libertou e descomplexificou o mundo para aceitarmos que a tecnologia passasse a controlar a nossa biologia.

As Universidades hoje vivem para atingir Metas

Repare-se como as universidades passaram a viver obcecadas por Rankings, que dependem do números de artigos que cada investigador publica, colocando pressão na publicação apenas para atingir metas completamente artificiais. Não surge inovação, nem qualquer melhoria para a sociedade através do cumprimento destas metas. Isso já foi amplamente debatido e discutido, inclusive com vários experimentos. Contudo, sem qualquer consciência dos seus efeitos secundários, as administrações universitárias em conjunto com os administradores políticos, continuam a colocar toda a sua ênfase governativa nestes indicadores. A razão é simples, é muito mais fácil vender a ideia de que estamos a subir a montanha para encontrar uma ilusão no topo, do que vender a subida da montanha porque faz parte da nossa caminhada.

Deste modo, as metas tornaram-se na estratégia número do design de qualquer atividade. As metas produzem um efeito visceral nos seres-humanos, e por isso o simples explicitar da mesma é suficiente para garantir o interesse dos sujeitos e colocá-los no caminho da sua obtenção. Claro que as metas só se tornam efetivas quando complementadas pelos devidos quadros comparativos, aquilo que nos jogos chamamos de 'quadros de honra'. Por isso, e com a entrada da gamificação, criou-se uma estratégia de design, que ficou conhecida como PBL (Points, Badges and Leaderboards), que já eram usada nas escolas, mas passou a ser utilizada um pouco por todo o lado como fundamento de motivação.

O lado negativo das metas, e no fundo de todos os sistemas de métricas, é que não funcionam como motivação intrínseca. São meros despoletadores externos que desaparecem no momento em que desaparece a sua quantificação. Ninguém vai passar a correr mais por usar o quantificador de passos da Nike, já que apenas o fará enquanto o quantificador de passos estiver ativo. No momento em que desaparecer, desaparece a motivação do corredor. O que não é mau de todo, já que explica porque dizia acima que a capacidade de criar verdadeira viciação ou dependência é residual. Mas afeta, quando se acredita que para mudar culturas basta a simples introdução de métricas para o transformar das pessoas.


Estratégia 2 - Feedback / Reação
As lógicas de feedback não se distinguem muito das metas, já que estão intrinsecamente conectadas, no sentido em que elas dependem do estabelecimento de metas para ocorrer. Ou seja, o Facebook só me pode dar feedback de um novo pedido de amigo porque quantificamos os amigos, ou do surgimento de uma nova mensagem porque quantificamos o número de mensagens. Como tal, o feedback funciona como amplificador do objeto de meta. Mais ainda, quando os estudos demonstram, que psicologicamente somos muito mais afetados, ou seja recompensados emocionalmente, pelo facto de estarmos quase a atingir uma meta, do que pelo facto de a atingir. A razão é simples, o estar quase, implica ainda investimento emocional, enquanto o atingimento da meta, corta abruptamente as sensações dessa atividade.

Da próxima vez que abrirem a página do facebook no vosso computador ou telemóvel, reparem como o vosso coração palpita no aguardo pelo carregamento dos dados até que verificam que os balões vermelhos de notificações estão acesos. E como no caso de estarem sentem um alívio, a recompensa, que pode ser aumentada no caso de estar não apenas um balão, mais dois, ou mesmo três ligados (notificações+mensagens+novos pedidos de amizade). O feedback é talvez o elemento mais importante do Design de Interação. Ou seja, é o garante da organicidade do sistema, da sua capacidade de se dar a quem com ele interage. No fundo, porque são sistemas que simplesmente emulam a comunicação humana. Reparem como nos damos mal com alguém que falha o feedback; se dizemos algo, esperamos sempre reação do outro lado, quanto mais não seja, um grunhido, dando conta da recepção daquilo que dissemos.

Por outro lado, se as metas se energizam pela necessidade de competição, o feedback energiza-se pela necessidade de colaboração. O feedback garante que não estamos sozinhos, e é por isso que tantas tecnologias se têm esforçado por encontrar formas de estarmos constantemente a debitar feedback, e tanto estudo tem sido dedicado a tentar compreender os melhores tipos de feedback (Like vs. +1, Reações do Facebook). Tudo isto explica também o crescimento insano nos últimos anos dos sistemas de notificações. Aliás, por reconhecer este poder invisível dos sistemas de notificação, na maior parte das tecnologias que uso — do telemóvel ao computador — só permito notificações do meu calendário pessoal e do alarme do relógio. O meu telemóvel tem todos os serviços de push desligados, e todas as aplicações têm as notificações inativas. No computador igual, nenhuma aplicação social me pode enviar e-mails, ou apresentar feedback nos ecrãs fora do âmbito da própria aplicação.


Estratégia 3 - Progress/o
Tendo em conta que já vai bastante longo este texto, não me vou alongar tanto nos próximos padrões, pela simples razão de que não são propriamente uma novidade para quem vai acompanhado este blog. No caso do padrão de progresso já aqui foi discutido várias vezes, nomeadamente aquando da recensão do livro "The Progress Principle" (2011) de Teresa Amabile.

O progresso diz respeito ao recortar do caminho para a meta em etapas (por exemplo os capítulos de um livro). A ideia passa por criar metas intermédias que funcionam como feedback em relação à meta final, deste modo desenvolve-se no sujeito a sensação de progresso. Este progresso é assim responsável por conferir motivação para se manter no caminho através das recompensas despoletadas pelo antingimento das metas intermédias. Um exemplo dado por Alter que é excelente, é o do “Dollar Auction Game”, que vale a pena analisarem no pequeno video da National Geographic (abaixo).

O experimento “Dollar Auction”.

Como se percebe, este jogo demonstra muitos dos problemas criados pelas metas e feedbacks, e pela noção de progresso, e como podem ser usadas contra nós. Muitas das atuais apps sociais aproveitam-se de tudo isto, e alguns dos sistemas que mais têm tirado vantagem deste design são os jogos “free-to-play”, daí que no meio dos estudos de game design, se tenha começado a definir muitos destes jogos como jogos predadores. Ainda assim o jogo que mais efetivamente soube rentabilizar todas estas técnicas foi “World of Warcraft”, acima de tudo pela sua forte componente social, tendo-se tornado num dos jogos que mais pessoas obrigou a recorrer a centros de ajuda na luta contra a dependência. Ou seja, apesar de continuar a defender os videojogos como pouco capazes de criar dependências reais, o cenário muda de figura quando falamos de jogos online, principalmente jogos massivos online. Nesses casos, não temos apenas sistemas desenhados para engajar jogadores, temos os jogadores incluídos num sistema em que se influenciam uns aos outros, criando sistemas de pressão social que vão muito além daquilo que a tecnologia consegue fazer per se.


Estratégia 4 - Escalation / Escalar
Provavelmente se utilizar a palavra que é utilizada no mundo da Educação e dos Videojogos, Scaffolding, reconhecerão mais facilmente do que trata este padrão. A discussão deste ponto realizei-a já bastante em detalhe no artigo académico "Elementos do design de videojogos que fomentam o interesse dos jogadores".

De forma resumida, o scaffolding consiste no desenho de “andaimes” por forma a ajudar os sujeitos no processo de escalada. Ou seja, toda a atividade tem as suas dificuldades, contudo os seres-humanos são mais facilmente motivados para a sua realização, quando o nível de dificuldade está ao seu alcance. Deste modo, o design deve levar em conta as necessidades dos utilizadores, e providenciar ajuda, garantindo contudo que não torna tudo demasiado fácil. Isto foi primeiramente definido por Vygotsky num modelo que ficou conhecido por Zona Proximal de Desenvolvimento.

Ao desenhar as atividades por meio de andaimes, garante-se a criação de flow (uma área em que a satisfação é otimizada) criando-se o desejo nos sujeitos de permanecerem envolvidos com as criações indefinidamente.


Estratégia 5 - Cliffhanger / Ganchos
Neste ponto Alter vai evocar o efeito de Zeigarnik, assente na Gestalt, para desconstruir a magia do envolvimento com as narrativas, dedicando assim grande parte da sua discussão às séries televisivas. Este efeito diz-nos que as experiências incompletas nos envolvem mais do que as completas, algo que já aqui tinha falado a propósito do livro de Cialdini "Pre-Suasion" (2016). Ou seja, enquanto não atingimos a completude do sentido de uma história somos envolvidos por esta, deixando-nos levar pela tensão e suspense, até que a resolução se dê, tudo se explique, e a tensão desapareça.


Um gancho é na gíria do audiovisual um elemento narrativo que se apresenta para prender o espetador. Por exemplo, numa história surge uma mãe num supermercado que rouba um pacote de bolos para os filhos que esperam lá fora. A seguir passamos para os miúdos e enquanto a mãe não sai da loja, o espetador fica agarrado sem saber se ela será apanhada ou não, se ela conseguirá trazer a comida às crianças. Os ganchos são utilizados sempre que se fecha um episódio de uma série, por forma a manter o interesse do espetador em procurar o episódio seguinte para responder ao gancho que ficou aberto. No fundo, um gancho é um elemento narrativo que se abre mas não se fecha no imediato, impedindo as pessoas de se libertarem da história enquanto não souberem como se resolve o conflito aberto.

O efeito de "Closure" da Gestalt diz-nos que o nosso cérebro não consegue evitar dar sentido ao que vê, por isso procura fechar o que está aberto.

Neste padrão encontra-se o fundamento da recente descoberta, por parte de uma grande fatia da sociedade, do storytelling, que passou a ser visto como a arma número um para garantir o interesse das pessoas, dos colaboradores, dos alunos, dos pacientes, etc. etc. A quantidade de livros que saíram nos últimos anos a defender a aplicação dos princípios do storytelling a praticamente toda a atividade humana é impressionante. Nesse sentido, é natural que muitas das tecnologias que nos rodeiam, tenham de algum modo procurado aqui também alguma da sua força. Não foram apenas os videojogos que se obrigaram a incluir histórias até nos jogos de lutas, carros e futebol, foram ferramentas como o Instagram que passaram a incluir modos de história para a partilha de fotografias, assim como o surgimento de dezenas e dezenas de aplicações para ajudar as pessoas a contar histórias.


Os ganchos são profundamente viciantes e explicam como as séries de televisão se tornaram no produto audiovisual mais influente da era atual, fazendo com que empresas como a Netflix se tenham transformado em colossos multinacionais.


Estratégia 6 - Social Interaction / Interação Social
Não há muito a dizer sobre este tema, ou melhor há mas implicaria todo um artigo completo, já que é de todas, a estratégia mais complexa, no sentido em que não se resume a uma componente, mas antes enquadra toda uma área. Enquanto Alter na estratégia anterior elegeu dentro da Narrativa apenas os Ganchos, aqui optou por apresentar todo o domínio da interação social como parte do padrão. Sobre este mesmo tópico escrevi já bastante no artigo "Social interaction design in MMOs" (2014).

Assim o que está aqui em questão, em essência, é a web social, uma web na qual as aplicações já não existem sem uma camada de Interação Social. Ou seja, o Instagram nunca se teria tornado o monopólio da fotografia digital se não viesse integrado com uma rede social. O Bookings ou o Trip Advisor nunca se teriam tornado nos centros de marcação de hotéis e viagens sem a interação social dos seus utilizadores. Os jornais que não foram capazes de desenvolver as suas próprias redes sociais, viram-se obrigados a despejar os seus artigos no Facebook para que estes pudessem ganhar tração. Tendo o próprio Facebook assumindo proporções inimagináveis para um simples site de internet, possuindo neste momento nas suas base de dados, informação relativa a mais de mil milhões de utilizadores, ou seja mais do que os EUA, Europa e Brasil juntos.

A interação social toca em vários pontos daquilo que nos define como seres humanos, e é por isso que se tornou numa espécie de 'santo graal' do engajamento na internet. Um desses pontos é a necessidade de comparação com os outros, outro é de colaboração, outro é de partilha, outro de competição, outro de compreensão, no fundo tudo aquilo que nos define, e que podemos simplesmente ir buscar ao Interacionismo Simbólico de Mead, quando diz que nos definimos a partir do modo como interagimos com o outro. Ou seja, a interação social é tão fundamental para o ser humano como a comida, a água, ou o respirar, já que sem ela definhamos enquanto seres. Daí que não possamos admirar-nos com a quantidade de pessoas que admite passar tempo excessivo no Facebook, enquanto outros admitem mesmo não conseguir desligar.


No final do livro, Alter procura apresentar algumas ideias interessantes sobre como podemos aprender a lidar com tudo isto, ou sobre como as companhias poderiam rentabilizar as suas técnicas de design sem afetar tão intensamente os sujeitos. Mas não passam de um conjunto de dicas, que acredito que cada um poderá desenvolver melhor à medida que se for tornando mais e mais consciente das manipulações de que é alvo. O livro de Alter e o desvelar destas técnicas, é em si mesmo o melhor antídoto para lidar com tudo isto.


ADENDA, 4 maio 2017
Depois de algumas conversas a propósito deste texto, resolvi deixar aqui quatro notas que podem contribuir para o controlo dos efeitos do envolvimento com as tecnologias de comunicação. A primeira já a tinha aflorado no meio do texto como princípio.

1- Não permitir que sistemas, aplicações, ou sítios web notifiquem, bloquear ou desativar tudo. Sei que dá jeito, mas refletindo sobre os prós e contras, é muito mais nefasto que benéfico. Ou seja, eu não quero os outros a determinar quando é que eu devo ler, aceder ou fazer algo, quero ser eu a decidir, sou eu quem determina o meu tempo. O meu pensamento não pode ser capturado por outros, mesmo que tenham coisas importantes a dizer-me, porque cada interrupção contribui apenas para me retirar daquilo em que estou empenhado no momento. Considero todos os sistemas de notificações como profundamente invasivos, e por isso não os permito no meu espaço.

2 - Uso de ferramentas guilhotina. Tendo em conta o poder de atração de muitos sítios web, passei a utilizar a ferramenta SelfControl (existem muitas outras) que me permite desativar o acesso a uma lista de links criada por mim. Quando ativa, durante o período de tempo escolhido, todos esses sites ficam impossíveis de ser acedidos, mesmo que se apague a ferramenta. Uso-a de momento para vedar o acesso ao Facebook, Twitter, GoogleNews, GoodReads —mas posso ir adicionando o que quiser. Deste modo, o que estou a fazer é a criar uma barreira ao alimento da procrastinação que assenta muitas vezes na sedução criada pela informação infinita presente nestes sítios.

3 - Privilegiar o e-mail em detrimento do telemóvel. Ou seja, o e-mail é uma ferramenta de comunicação assíncrona, permite-me gerir o momento em que recebo e respondo, enquanto o telemóvel pela sua sincronia tende a atuar como as notificações, a invadir o meu espaço mesmo que eu não esteja naquele momento disposto a tal. Deste modo, o que faço é não atender muitas chamadas, na maior parte do tempo porque não tenho ativa a notificação sonora, mas muitas vezes porque não as quero atender naquele momento. Comunico posteriormente às pessoas que é preferível tentarem contactar-me por e-mail.

4 - Limitação das redes sociais no telemóvel. Não uso aplicações de redes sociais no telemóvel — Facebook, Twitter, GoodReads — a única excepção é o Instagram, porque apenas a uso no telemóvel. Deste modo reduzo o uso do sistema à gestão do meu tempo — telefone, e-mail, calendário, agenda e tarefas — e algum entretenimento.



Textos de interesse
How technology gets us hooked, um excerto do livro criado pelo próprio autor para o Guardian
Contagious: Why Things Catch On” (2013)  in Virtual Illusion
The Progress Principle (2011) in Virtual Illusion
Social interaction design in MMOs (2014) in Routledge
Elementos do design de videojogos que fomentam o interesse dos jogadores, in Educação, Sociedade & Culturas, n48
A Manipulação das Reações do Facebook, in IGN
Story-Game Design for Learning, in TicEduca 2014

domingo, abril 23, 2017

A Ciência não é Crença é Conhecimento

Sei que não devia partilhar o texto publicado pelo jornal Público, "Crença na Ciência", mas não o fazer não serve o propósito que me leva a escrever estas linhas. Não adianta esconder um texto a que qualquer um pode aceder, que ainda por cima lança ideias com que muitos comungam. É antes mais relevante dá-lo a conhecer e explicar porque está errado. Enquanto membro da comunidade científica é meu dever contribuir para a formação da sociedade, devo a esta o manter-me alerta e vigilante quando a mentira é apresentada como verdade. Se o jornal Público publica um texto carregado de falsidades sem qualquer contextualização, alerta ou filtragem, cabe-nos a nós fazer aquilo que o jornal, que já foi referência nacional, se coibiu de fazer.


Rui Devesa Ramos não é alguém que resolveu mandar uns bitaites, é Doutor em Psicologia, e como tal tem responsabilidades para com a comunidade que habita. Podemos questionar a obtenção do título, mas tendo-o obtido perante um júri reconhecido, interessa-me mais concentrar no que diz neste texto do que no modo como obteve o título.

Ramos começa por dizer que “Do ponto de vista antropológico a ciência nunca será mais do que uma crença civilizacional”, o que não está errado. A antropologia dedica-se ao estudo do homem, a compreender como se fez, de que se fez, e como continua a fazer. Deste ponto de vista, referir que a ciência é uma das grandes crenças da humanidade contemporânea nada tem de errado. A ciência é hoje o principal ideário das nossas ações, e por isso define grandemente aquilo em que acreditamos enquanto humanos. Mas a frase que se segue, e que acaba por dar mote a todo o restante texto, apesar de parecer ser do mesmo teor, é totalmente distinta:
“o que faz com que a ciência “funcione” deriva determinantemente da crença que temos nela” 
Isto não é verdade, é uma mentira atirada com areia, acima descrita, aos olhos de quem lê. A ciência não funciona porque se acredita nela, a ciência funciona porque a sua ação é observável e experienciada pelos membros da comunidade. A areia continua pelo resto do texto, porque Ramos dedica-se apenas ao tópico que lhe interessa atingir, a medicina, que como sabemos é uma das áreas que apesar de ter evoluído drasticamente, tem de lutar permanentemente contra as forças da natureza que se vão alterando com o tempo e atuação humanas. Ou seja, muitos dos cancros que hoje conhecemos não existiam há 100 anos, porque não existiam as comidas processadas que hoje comemos, nem tínhamos hábitos sedentários como hoje temos. Mas em contra-partida foi a medicina que eliminou a tuberculose que tantos milhares de nossos antepassados consumiu ao longo do século passado.

Não, não foi a crença que eliminou a Tuberculose, foi a ciência. Não foi a crença que eliminou a Peste Negra, a Rubéola, a Lepra, a Tosse Convulsa, a Difteria, o Raquitismo, a Poliomielite ou a Escarlatina. Foi a ciência, porque não é teoria, nem sequer mera ideia, é antes experimentação e validação de opções de tratamento. Sim, para encontrar o tratamento certo é preciso errar, errar muito, mas encontrado e validado, pode ser utilizado por todos os restantes membros da comunidade, de modo a que possam evitar ser acometidos pelos mesmos males. Sim a medicina não é uma religião, é uma ciência, e é por isso que não cura tudo, temos muito ainda para fazer — Sida, Cancro, Alzheimer, Parkinson, etc. Se bastasse acreditar, estas doenças também teriam sido já erradicadas, mas não chega acreditar. Não há crença que salve uma criança acometida de um cancro de leucemia, a ciência pode falhar, e falha muito, mas sem ela nem sequer de taxas de sucesso poderíamos falar.

Mas e saindo da área da medicina, será que a crença tem uma palavra mais importante a dizer que a ciência. Podemos dizer que um avião voa porque as pessoas que lá vão dentro acreditam no ato de voar? Podemos dizer que a televisão dá imagens, ou o frigorífico refrigera, porque as pessoas acreditam em algo que nem sequer sabem como funciona? Podemos dizer que quando aplicamos força sobre os pedais de uma bicicleta e as rodas desta se movem, tal acontece porque acreditamos nessa força?

O problema de Rui Ramos é querer atirar areia para os olhos de quem o lê. É usar conceitos abstratos, tais como crença e vontade individual, para definir conceitos concretos como ciência, mas obviamente que ao fazê-lo induz-se a si próprio em erro, como quando diz:
“Toda a crença emanada pela vontade individual é necessariamente boa, devendo, contudo, ser bem informada – vale mais que toda a ciência.” 
A crença pressupõe uma convicção, mas se é informada deixa de ser crença, porque passa a ser sustentada, e logo passa a valer o mesmo que ciência. Ou seja, acreditar que posso curar uma dor de dentes simplesmente eliminando a dor do meu pensamento, é uma convicção que resulta da falta de informação, e que quando aplicada faz com que a dor regresse sempre que o pensamento da dor se apresenta. A convicção individual não resolve o problema, e a realidade demonstra-o passado pouco tempo. Já acreditar que a dor passará depois de morto o nervo que alimenta o dente, é uma crença baseada em informação presente na comunidade, que efetivamente depois de experimentada faz a dor desaparecer. Mas não desaparece apenas para mim, desaparece para todos os humanos que se submetem a esse mesmo tratamento. Ou seja, a crença deixou de o ser, porque informada pela experiência da comunidade passou a ser conhecimento, que não se baseia em convicções mas em experimentações.

Por isso a crença não vale mais do que a ciência. A crença pode servir para nos conduzir a aceitar a ciência, pelo desconhecimento da sua complexidade, mas só o facto desta funcionar é que transforma a crença em conhecimento. Não acreditamos cegamente, acreditamos porque vemos funcionar. Não entramos num avião para voar porque acreditamos, mas porque conhecemos. Um conhecimento criado pela experiência da realidade do voo feito, do que vemos pela janela e pelo facto de em duas horas estarmos num ponto situado a dois mil quilómetros do ponto de partida. Do mesmo modo não tomamos uma vacina porque estamos convictos do seu efeito, tomamos porque tendo visto quem as tomou não sofrer de doenças que os nossos antepassados sofreram, acreditamos nesse conhecimento. A ciência não exige crença, a ciência exige experimentação.

quinta-feira, abril 13, 2017

A Ciência do Governo, o Ministro e a FCT

No final de 2016 disse no Facebook que o governo tinha falhado em toda a linha da Ciência ao não abrir qualquer concurso de financiamento de projetos de investigação ao longo de todo o ano. Tinha passado todo o ano em reuniões, audições e conversas, mas ação efetiva nada tínhamos visto. Que seria preciso algo em grande em 2017 para recuperar a credibilidade. Chegado a 2017, com que nos presenteia o governo?

As 500 páginas de leitura necessária para submeter um projeto científico em 2017

Um concurso de financiamento de projetos científicos que é tudo menos tal. Talvez o melhor adjetivo para qualificar este concurso seja aquele que já vai sendo comum na política nacional, uma grande trapalhada.

1 - O grande objetivo do concurso passa afinal por dar resposta a uma bandeira política, a criação de emprego científico, e não verdadeiramente apoiar a realização de projetos de investigação. Ou seja, dos 240 mil euros a que se pode concorrer, 50% são automaticamente alocados ao pagamento de um desses empregos ao longo de 3 anos.

Assim, em vez dos propalados 240 mil euros oferecidos ao projeto, temos na verdade 100 mil, ou seja, metade do que tínhamos nos concursos anteriores.


2 - As regras impostas à aquisição de equipamento, como computadores entre muitos outros materiais, usam lógicas de desgaste. Ou seja, um computador prevê-se que dure 4 anos, como os projetos só podem desenvolver-se até 3 anos, ficará nas costas do professor arranjar dinheiro para suportar a última quarta parte do custo desse equipamento.

Compreendendo esta lógica numa empresa, não se compreende como é que se espera que um professor isolado, que é obrigado a assinar termos de responsabilidade financeira, se pode colocar numa situação destas. Espera-se que retire do seu salário congelado há 10 anos?


3 - Para tornar tudo isto ainda mais aliciante, o concurso foi desenhado a partir de um amontoado de preceitos, regras e obrigações que converteram o tradicional manual de candidatura, que tinha à volta das 30-50 páginas, numa dúzia de documentos, que depois de imprimidos perfazem cerca de 500 páginas. Ou seja, o professor — que tem de dar aulas, gerir a universidade, e fazer investigação — deve agora ainda encontrar tempo e capacidade mental para ler e digerir estas 500 páginas de regras e regrinhas. Que importa o estado-da-arte da investigação, que importa a inovação do projeto apresentado, o relevante é obedecer a todos os parâmetros que o governo impõem para aceder ao dinheiro.

O governo diz-nos que é porque tem de justificar os dinheiros a partir de múltiplas rubricas europeias. Eu digo que não, que é um problema da sua gestão, péssima organização e desconsideração total pelos professores da universidade portuguesa. Para que servem os Sistemas de Informação, porque andamos a gritar contra a automação. Ora se o governo tivesse feito o seu trabalho, teria ele próprio desenhado o sistema de informação, por forma a automatizar todas as relações entre linhas de financiamento, não delegando para os investigadores a necessidade de conhecer os meandros desses mecanismos. Ao governo compete facilitar a investigação, aos investigadores compete investigar.


4 - Como não podia deixar de ser em processos desta magnitude burocrática, as pérolas vão-se descobrindo aos poucos. Primeiro percebeu-se que do último concurso para este, as áreas científicas interdisciplinares tinham mudado de nome, devem ter propriedades camaleónicas. Mas não só, as áreas da FCT não são as mesmas que depois surgem na documentação que define as áreas de investimento a privilegiar pelo país em ciência. Assim, a ciência pode ser de tudo um pouco.

Mas o melhor surge quando olhamos para essas novas áreas que servem de espartilho ao financiamento de ciência, e se percebe que a investigação foi submetida a uma espécie de regionalização científica, com os montantes de verbas a variar de região para região, e nem todas as áreas de investigação a serem elegíveis em todas as áreas geográficas. Ou seja, um professor em Vila Real, apesar de leccionar a mesma área que um colega de Lisboa, e precisar de fazer avançar o seu trabalho de modo a garantir que aquilo que lecciona é o estado-da-arte, não o poderá fazer porque a sua NUT não aceita que ele o faça na sua Universidade.


5 - Se o conteúdo do proposto é mau, a forma não lhe fica atrás, nomeadamente naquela que é a plataforma de submissão das candidaturas. Se até aqui submetíamos tudo numa plataforma mais ou menos simplificada pela FCT, agora apresentam-nos um Balcão 2020 que é um verdadeiro terror. Tanto que temos investigadores nacionais seniores a dizerem que nem sequer lá entram. Resta então aos mais novos que não têm alternativa, e ainda precisam de lutar pela carreira fazer esse trabalho?! Mais, no caso de algumas Universidades, como a minha, isto é ainda mais interessante, já que o professor não terá apenas de preencher a plataforma do Balcão 2020, como terá ainda de replicar tudo para uma segunda plataforma interna. E como tudo isto tem de ser confirmado internamente, terá ainda de o fazer muito antes do prazo final dado pela FCT!

Acredito que os Reitores e o sr. Ministro nunca tenham entrado nestas plataformas, assim como nunca tenham olhado para o dossier de PDF necessários ao seu preenchimento.


6 - A fechar, e como não poderia deixar de ser, já que é prática de todos os Sistemas de Informação desenvolvidos pelos Serviços Públicos nacionais, foram criados grandes ações de informação e explanação do modo de funcionamento do concurso. A incompreensão do funcionamento pela comunidade é de tal ordem que as sessões organizadas se esgotaram, e tiveram de ser realizadas novas, incluindo outras a nível interno.

Ou seja, nem a Informação foi preparada para os utilizadores finais, nem as plataformas dão resposta a tal. Design de Interação é algo que não existe para todos estes sistema, já que primeiro implementa-se e depois explica-se como funciona. Os humanos que obedeçam às exigências das máquinas.


Resumindo, o último concurso de financiamento a projetos científicos em Portugal foi publicado em 2014. Passados três anos, e dois anos depois deste Ministro estar no governo, é isto que se oferece à ciência nacional. Querem rankings de Universidades jovens, universidades não jovens, de publicações na Science, indexadas nas ISI e SCOPUS? Tenho uma recomendação, façam como alguns desses países gananciosos por rapidamente subir nos rankings, e "comprem" investigadores com pergaminhos criados lá fora. Esqueçam o desenvolvimento de ciência por cá, já que dá muito trabalho de gestão, e se existe algo em que Portugal continua a ser bom é na desorganização total.

O sr. Ministro diz sentir falta de "ativismo académico", tem toda razão, pouco ou nada se ouviu até agora sobre toda esta trapalhada, vejo todos os meus colegas muito calados.

sexta-feira, abril 07, 2017

Walden, uma história muito mal contada

Há anos que leio referências a “Walden” que leio reverências a Thoreau, e agora que aqui chego e leio a obra em si, surpreendo-me sobremodo com o que encontro. Não vinha à espera de nada em particular, apenas talvez o reconhecimento da natureza, o reconhecimento de uma vida enriquecida pela simplicidade dessa natureza, contudo encontrei tudo menos isso.


Antes que possam dizer que passei ao lado da essência, li sobre a obra, sobre o autor, sobre a sua proximidade com Ralph Waldo Emerson e em particular sobre a corrente filosófica que ambos procuram defender e fazer avançar, o transcendentalismo. Tanto que quase poderia desculpar a má impressão criada pela obra com base nessa corrente. Mas sendo o transcendentalismo proposto por estes, é sobre estes que nos devemos pronunciar.

Diga-se que a minha visão crítica desta obra não é uma raridade, o livro tem sido imensamente criticado desde que foi publicado. E ainda em 2015 a New Yorker publicou um extenso texto a tentar explicar o que há de errado com o livro, acertando, na minha opinião, em muitos dos problemas do texto, nomeadamente dos valores defendidos no mesmo.

Começando pelo único ponto positivo, a premissa. “Walden” tem uma premissa atrativa, alguém que se cansou de viver a vida desenfreada em sociedade e decide retirar-se para o meio da floresta, viver isolado e sozinho, apenas com a natureza, dependendo desta para sobreviver, evitando qualquer contato ou dependência de outros humanos. A atratividade desta ideia assenta na tentativa de se chegar à essência do que somos, do que nos define, de nos encontrarmos sem depender tanto dos espelhos que são os nossos pares. Assim como da separação da materialidade, da recusa da dependência dessa, vivendo o mais natural possível, objetivando voltar ao estado mais natural possível.

Contendo algo de positivo, visto pelos olhos de Thoreau tudo isto se transforma no seu oposto. Ou seja, Thoreau assume esta visão de modo extremista, radicalizando completamente a sua posição e a do mundo que o rodeia. O discurso segue atacando todos os que o rodeiam, separando-se deles, assumindo-se como o único ser que importa à face da terra. Autocentrado, inicia uma aventura tresloucada para quem nada já faz sentido desde o próprio ato de comer e beber à educação ou trabalho. O idealismo segue atrás da frugalidade e austeridade total, em nome de não se sabe o quê. Tudo isto está em parte na base do tal transcendentalismo, o ir além daquilo que somos pela supressão das necessidades, nomeadamente das do corpo, visto como mero envelope de uma alma que se quer pura. Não fosse todo o discurso de Thoreau pontuado por toda uma arrogância, pedantismo e orgulho e talvez se pudesse aceitar.

O primeiro capítulo, o maior do livro e dedicado à economia, ou modo como sobreviver em termos financeiros, é de uma sobranceira impressionante. Thoreau, filho de industriais, educado em Harvard, apresenta-se como especialista em matéria de sobrevivência, desdenhando do conhecimento e das imensas dificuldades que sofrem quem habita e vive apenas daquilo que a terra oferece, acabando por sobreviver ele próprio muito à custa das ajudas de todas essas pessoas. Um discurso típico de quem alimenta ideias, sem nunca ter de verdadeiramente que se suportar nelas. Isto é algo a que ainda hoje podemos assistir, a idealização do regresso à terra e à agricultura, como se essas vidas pudessem ser vividas apenas aos sábados com sol, esquecendo toda a dureza das condições de quem faz disso vida.

Este transcendentalismo tem algumas relações com o hinduísmo, contudo torna-se inaceitável quando filtrado por uma enorme falta de humildade. A visão critica dos outros torna inaceitável tudo o que tenha para nos dizer. Tudo se torna ainda mais ridículo quando nada do que se vai dizendo assenta em qualquer trabalho de análise metódico, já para não referir científico já que nem sequer religioso, mas apenas e só individual e subjetivo. Se muitos optam por ver nesta abordagem de Thoreau, o rechaçar de tudo e todos, um ideal de desobediência, eu vejo antes um ideal de arrogância. Eu vejo a antítese da célebre frase de John Donne “Nenhum homem é uma ilha”.

Por fim, apesar de escrito de modo bastante eloquente, o discurso está carregado de metáforas simbólicas que conduzem o texto muitas vezes a fugir da prosa para um registo mais poético. Esta forma não advém das competências estilísticas do autor, mas antes das raízes das formas românticas que permearam muito do que definiria o transcendentalismo. Contudo não é em si um texto de grande beleza, menos ainda quando dotado de um conteúdo assente no idealismo e egoísmo de Thoreau.

terça-feira, abril 04, 2017

"Sapiens", porque dominamos o planeta?

Sapiens: A Brief History of Humankind” conta a história da nossa espécie, focando-se sobre o modo como passámos de presas a predadores e nos tornámos na espécie dominante. Yuval Noah Harari parte da sua disciplina base, a História, à qual acopla as restantes ciências sociais — Comunicação, Sociologia, Psicologia, Economia e Geografia — tudo estruturado por uma lógica Evolucionista. O resultado é uma obra de divulgação de ciência dotada de enorme retórica e alcance conceptual, capaz de colocar Harari ao nível de Carl Sagan, David Deutsch, Jared Diamond, Stephen Hawking ou Richard Dawkins.


Bastam as primeiras páginas para percebermos que estamos perante um texto distinto, no qual Harari define desde logo três momentos chave no seu enquadramento sobre o modo como a espécie humana transformou por completo a sua presença no planeta: a Revolução Cognitiva (70,000 anos a.c.); a Revolução Agrícola (10,000 anos a.c.); e a Revolução Científica (1500 d.c.). Harari foca todo o historiar a partir da primeira revolução, contando a nossa história ao longo destes 70 mil anos, numas breves 400 páginas.

Assim, até à Revolução Cognitiva, seríamos uma espécie como as outras, indefesa e presa fácil. A partir deste momento, passámos a contar com a Linguagem e com a Comunicação que iriam suportar a cooperação em larga-escala, permitindo-nos começar a trabalhar em grupos, comunidades, tribos e depois nações, ou seja, permitiu-nos organizar-nos e sair de África para conquistar todo o planeta. A partir deste ponto, o nervo central da nossa história deixa de ser a Biologia e passa a ser a Cultura por nós produzida. Nestes 70 mil anos, biologicamente falando pouco mudámos enquanto Sapiens, já culturalmente nada mais fizemos do que mudar.

A Revolução Agrícola apresentada por Harari não traz muito de novo, tendo em conta que Jared Diamond praticamente esgotou o tema nas suas obras, ainda assim existe espaço para a primeira grande provocação deste livro: terá sido um erro? Tendo em conta os níveis de felicidade humana, Harari questiona se não nos teremos tornado mais infelizes, ao deixar-nos sedentarizar e escravizar pelo trabalho duro e pesado da agricultura, tudo em nome de mais conforto. A questão tem provocado imensa discussão, não vou tomar partido, assumo antes um conceito criado por K. Kelly há uns anos, o da “inevitabilidade tecnológica”, e que Harari quase aflora, e que nos diz que somos de certo modo impulsionados pela tecnologia, enquanto parte da cultura, a inventar e a inovar. Deste modo não adianta muito questionar se terá sido um erro, já que dificilmente se pode ver como uma escolha da espécie.

Ambas as revoluções foram fruto de uma tecnologia base da comunicação, o ato de contar histórias que sustenta os mitos e as religiões. Foi através deste que pudemos criar imaginários coletivos, capazes de produzir crença e assim solidificar a colaboração na base da confiança uns nos outros. Contudo a uma determinada altura, os mitos e as religiões estagnariam o progresso, nomeadamente pelo seu distanciamento cada vez maior da realidade. Basta olhar para os séculos da idade medieval e o seu resultado em Inquisições religiosas. E é aí que Harari coloca a última revolução, a científica, que transformaria por completo o imaginário e impulsionaria avanços na capacitação da espécie, que antes nunca teriam sido sequer sonhados.

Harari é fortemente dotado na retórica pela narrativa, usa recorrentemente pequenas histórias, que polvilha com imensos factos, e afirma sem dúvidas, o que tem a dizer. Ou seja, partindo do pressuposto que as estruturas narrativas da nossa História são meramente especulativas, Harari faz aquilo que Sagan fazia, assume a sua escolha, e conta a sua história, como se da verdade absoluta se tratasse. Isto é problemático em termos científicos, mas por outro lado, é fundamental em divulgação científica. Não seria possível escrever um livro sobre 70 mil anos de história, se se ponderassem todos os caminhos e variáveis possíveis. O que Harari faz é contar a história, segundo pressupostos lógicos, fundamentados em processos dedutivos, assentes em grandes marcos teóricos.

Um desses marcos é o Evolucionismo. Toda a História de Harari se distancia do mero relatar de factos, da mera exposição do que terá acontecido, já que este se concentra antes em explicar porque aconteceu assim. E fá-lo munido de um grande conjunto de dados provenientes de uma série de disciplinas distintas. Ora o evolucionismo, apesar da sua problemática (não ser testável experimentalmente), acaba por funcionar muitíssimo bem em todo este trabalho, tal como já tinha acontecido com Dutton em “The Art Intinct”. Porque o evolucionismo contribui com um quadro teórico que sustenta um conjunto de preceitos lógicos e respondem de modo científico, ainda que teorizante, a questões que até aqui se enquadrariam no reino do mero mito.

Nesta senda Harari vai acabar por re-rotular muito daquilo que conhecemos, nomeadamente transformando todos os sistemas políticos — comunismo, capitalismo, socialismo, etc. — em religiões substitutas, no sentido em que passaram a ser estas quem dita as nossas condutas. Pelo meio Harari apresenta amiúde rasgos interpretativos soberbos, não totalmente deslocados de outros teóricos especulativos, nomeadamente no campo dos Estudos Culturais. Aproveito para deixar alguns desses rasgos:

Imaginário: Consumismo Romântico
“Even what people take to be their most personal desires are usually programmed by the imagined order. Let’s consider, for example, the popular desire to take a holiday abroad. There is nothing natural or obvious about this. A chimpanzee alpha male would never think of using his power in order to go on holiday into the territory of a neighbouring chimpanzee band. The elite of ancient Egypt spent their fortunes building pyramids and having their corpses mummified, but none of them thought of going shopping in Babylon or taking a skiing holiday in Phoenicia. People today spend a great deal of money on holidays abroad because they are true believers in the myths of romantic consumerism.”
..
“Romanticism tells us that in order to make the most of our human potential we must have as many different experiences as we can. ”
..
“Consumerism tells us that in order to be happy we must consume as many products and services as possible.”
..
“Romanticism, which encourages variety, meshes perfectly with consumerism. Their marriage has given birth to the infinite ‘market of experiences’, on which the modern tourism industry is founded. The tourism industry does not sell flight tickets and hotel bedrooms. It sells experiences.”
..
“Like the elite of ancient Egypt, most people in most cultures dedicate their lives to building pyramids. Only the names, shapes and sizes of these pyramids change from one culture to the other. They may take the form, for example, of a suburban cottage with a swimming pool and an evergreen lawn, or a gleaming penthouse with an enviable view. Few question the myths that cause us to desire the pyramid in the first place.”
Imaginário: Capitalismo
“Contrary to Aristotle, there is no known biological difference between slaves and free people. Human laws and norms have turned some people into slaves and others into masters. (..) 
Most people claim that their social hierarchy is natural and just, while those of other societies are based on false and ridiculous criteria. Modern Westerners are taught to scoff at the idea of racial hierarchy. They are shocked by laws prohibiting blacks to live in white neighbourhoods, or to study in white schools, or to be treated in white hospitals.
But the hierarchy of rich and poor – which mandates that rich people live in separate and more luxurious neighbourhoods, study in separate and more prestigious schools, and receive medical treatment in separate and better-equipped facilities – seems perfectly sensible to many Americans and Europeans. Yet it’s a proven fact that most rich people are rich for the simple reason that they were born into a rich family, while most poor people will remain poor throughout their lives simply because they were born into a poor family.”
Imaginário: A Felicidade
“What good was the French Revolution? If people did not become any happier, then what was the point of all that chaos, fear, blood and war? Biologists would never have stormed the Bastille. People think that this political revolution or that social reform will make them happy, but their biochemistry tricks them time and again.” 
“There is only one historical development that has real significance. Today, when we finally realise that the keys to happiness are in the hands of our biochemical system, we can stop wasting our time on politics and social reforms, putsches and ideologies, and focus instead on the only thing that can make us truly happy: manipulating our biochemistry. If we invest billions in understanding our brain chemistry and developing appropriate treatments, we can make people far happier than ever before, without any need of revolutions. Prozac, for example, does not change regimes, but by raising serotonin levels it lifts people out of their depression. Nothing captures the biological argument better than the famous New Age slogan: ‘Happiness Begins Within.’ Money, social status, plastic surgery, beautiful houses, powerful positions – none of these will bring you happiness. Lasting happiness comes only from serotonin, dopamine and oxytocin.”
Sim, ele está a falar de uma espécie de Soma do “Admirável Mundo Novo”. Mas a seguir diz,
“the findings demonstrate that happiness is not the surplus of pleasant over unpleasant moments. Rather, happiness consists in seeing one’s life in its entirety as meaningful and worthwhile. There is an important cognitive and ethical component to happiness (..) “As Nietzsche put it, if you have a why to live, you can bear almost any how. (..) “Though people in all cultures and eras have felt the same type of pleasures and pains, the meaning they have ascribed to their experiences has probably varied widely (..) medieval people certainly had it rough. However, if they believed the promise of everlasting bliss in the afterlife, they may well have viewed their lives as far more meaningful and worthwhile than modern secular people, who in the long term can expect nothing but complete and meaningless oblivion” 
“So our medieval ancestors were happy because they found meaning to life in collective delusions about the afterlife? Yes. As long as nobody punctured their fantasies, why shouldn’t they? As far as we can tell, from a purely scientific viewpoint, human life has absolutely no meaning. Humans are the outcome of blind evolutionary processes that operate without goal or purpose. Our actions are not part of some divine cosmic plan, and if planet Earth were to blow up tomorrow morning, the universe would probably keep going about its business as usual. As far as we can tell at this point, human subjectivity would not be missed. Hence any meaning that people ascribe to their lives is just a delusion.” 
“If happiness is based on feeling pleasant sensations, then in order to be happier we need to re-engineer our biochemical system.”

“If happiness is based on feeling that life is meaningful, then in order to be happier we need to delude ourselves more effectively.”  
“Is there a third alternative?”

Terão de ler o livro para saber se existe essa terceira alternativa. Resumindo, o mais relevante é como Harari acaba a demonstrar com estes imaginários, o quão somos feitos de ilusões (e não parece estar sozinho a julgar pela última entrevista de Dennett) e o quão frágeis, efémeros e inconstantes somos por oposição a todo nosso escafandro biológico. No último capítulo Harari leva a especulação para o futuro e mostra-nos um possível novo mundo no qual a espécie sapiens desaparece para dar lugar a uma espécie de neo-sapiens. Seremos outros, alterados externamente com próteses computacionais, assim como transformados biologicamente a nível celular e de DNA. É verdade que Harari parece apresentar um discurso algo pessimista, mais ainda quando comparado ao otimismo quase exacerbado de David Deutsch. Mas não deixa de ser um discurso realista, lógico e pela sua enorme eloquência imensamente atrativo.

A propósito da data de publicação. O livro foi publicado pela primeira vez em hebreu em 2011, apesar de Harari dominar o inglês, uma vez que se doutorou em Oxford, o que demonstra que se podem publicar grandes obras noutras línguas que não o inglês. É claro que a obra só se tornaria mundialmente famosa quando foi traduzida para inglês em 2014. Mas não tenhamos ilusões, não foi o inglês a razão do seu sucesso, mas o facto de pessoas famosas e poderosas como Obama, Bill Gates ou Zuckerberg o terem recomendado. Entretanto está já também traduzida para português pela Vogais, desde 2015.

Por último, e interessante mais para académicos, é o modo como surgiu o livro, depois de Harari ter sido obrigado a dar uma cadeira que não era a sua especialidade, História Mundial, sendo ele especialista em História Militar Medieval. Interessante porque mostra como os riscos da mudança implicam a criação de novo. Como também, se estivermos abertos a novas experiências poderemos encontrar novas razões, novos mitos para nos manter a sonhar a vida.

domingo, abril 02, 2017

“Dentes Brancos” (2000), o poder do símbolo

“Dentes Brancos” é uma obra poderosa, carregada de significados impossíveis de decifrar numa única passagem. É uma obra imensamente rica porque pede não mera reflexão mas diálogo em busca dos significados pretendidos e dos que cada um de nós leu, interpretou e sentiu. Mas não sendo eu grande fã de simbolismos, ou melhor das ultrainterpretações a que dão azo, tenho de dizer que aquilo que primeiro me seduziu em Zadie Smith foi a sua escrita, que Quinn muito bem definiu no New York Times como: “exuberante pirotecnia verbal”.


Pela sua qualidade estilística Zadie está na, minha, galeria de escritores ao lado de Jonathan Franzen e Philip Roth, embora para a maioria da imprensa esteja ao lado de Salman Rushdie. Impressionando, impacta verdadeiramente quando percebemos que “Dentes Brancos“, primeira obra, foi publicada em Janeiro de 2000, quando tinha 24 anos, e segue quando descobrimos que esta surge de um primeiro manuscrito datado de 1997, com 21 anos, que lhe valeu um contrato em redor das 250,000 libras. A idade impressiona, e houve quem qualificasse Zadie como uma daquelas crianças hiperativas que se revela cedo demais, correndo o risco de se perder no futuro, mas em 2017 sabemos que tal profecia não se concretizou, Zadie publicou desde então mais 4 romances, um dos quais, “Uma Questão de Beleza”, sobre o qual já aqui dei conta. Impressiona-me particularmente já que Zadie nasceu um ano depois de mim, o que me dá uma perspectiva muito próxima do que terá sido necessário para atingir este nível. Zadie é talento em bruto, mas não chega, o qualificativo de hiperatividade não é descabido, já que foi preciso investir muito do seu tempo em leitura, em introspeção e escrita. Produzir um texto desta magnitude com vinte e poucos anos não está ao alcance de muitos de nós, pode faltar talento mas falta acima de tudo o amor e a dedicação que Zadie depositou na literatura.

Zadie Smith

Em termos temáticos Zadie usa “Dentes Brancos” para ir ao fundo das complexidades familiares, raciais, colonizadoras e culturais da Inglaterra contemporânea. E se o livro terá impactado em 2000, o Brexit em 2017 veio tornar ainda mais relevante tudo o que nele se discute. Temos numa mesma narrativa, mais de 150 anos de história, três gerações e várias ex-colónias britânicas. A Jamaica, o Bangladesh e a Índia são chamados para a mesa inglesa, e o diálogo torna-se explosivo, multicolorido, dando a conhecer a essência da multiculturalidade. Zadie introduz temas como a 2ª Guerra Mundial, a eugenia, as religiões, a ciência, o livre-arbítrio, o suicídio, colocando toda uma constelação de personagens a questionar o propósito da vida. O propósito é aquilo que torna o resumo do livro tão difícil e os personagens tão diversos e realistas podem afastar-nos, mas Zadie usa uma forma inteligente de nos aproximar de tudo e todos, o "humor sério". Não sendo eu grande apreciador de comédia tenho de dizer que ri, gargalhadas espontâneas, imensas vezes ao longo da leitura, com o modo como tratando assuntos sérios e complexos, os personagens, cada um dotado das suas lógicas e crenças culturais, questionam o mundo.

Todas estas temáticas só são possíveis pelo contexto que envolve Zadie, as suas raízes. Filha de mãe negra, imigrada em 1969 da Jamaica para Inglaterra, e de pai branco britânico, em segundo casamento. Com dois meios-irmãos e dois irmãos mais novos, e uma adolescência marcada pelo divórcio dos pais, que a levou a mudar o seu nome original, de Sadie para Zadie. Este contexto parece ter servido de ebulição à criatividade que viria a demonstrar na universidade, no King's College em Cambridge, onde daria nas vistas com pequenos contos, e conseguiria então captar o interesse para um contrato de primeira obra.

Voltando ao início, o livro está carregado de símbolos. Não são necessários decifrar para se compreender a história, para se sentir prazer na leitura, mas instigam-nos a ir mais fundo, assim como separam o livro do mero historiar de aventuras familiares de raças diferentes. Elevam o sentido da leitura e explicam porque a literatura continua tão relevante enquanto arte, já que consegue não apenas fazer-nos passar bons momentos, mas ao mesmo tempo ensinar-nos, contribuindo para o edificar da nossa base civilizacional.

E assim, mesmo não sendo particularmente fã da ultrainterpretação simbólica, não quero deixar de destacar aqui o sentido do título da obra. Como disse, existe muito mais nas páginas do livro, tal como o RatoFuturo, o KEVIN, ou o Dr. Doença, que poderiam por si dar origem a páginas e páginas de reflexões, e que terão já dado múltiplas teses de mestrado. Mas porquê “Dentes Brancos”? Tenho de confessar que as ideias que passo a explorar não são originariamente minhas, surgiram de várias leituras (ligações: ab, cd, e), que me permitiram por via da confrontação de ideias, chegar uma interpretação que satisfez a minha leitura e o meu mundo.

Os “Dentes Brancos” surgem ao longo do livro várias vezes, mas sem conotações concretas, do impacto visual dos seus estragos (uma personagem não tem todos os dentes da frente), contrastando-se com o excessivo cuidado na sua limpeza (um dos personagens lava os dentes 5 a 6 vezes por dia). Como se os dentes tivessem uma relevância de classe, capaz de marcar a diferença de cultura e até de raça. Contudo, o mais significativo não surge nas páginas, temos de chegar lá por analogia, pela construção discursiva que nos une. Sendo um texto defensor do multiculturalismo, o que costumamos dizer é que a cor da pele na conta porque debaixo da mesma, corre o mesmo sangue vermelho. Ora dentro das nossas bocas estão também os mesmos dentes brancos, iguais para todos mas ao mesmo tempo diferentes, tão diferentes que são usados para identificar os restos mortais de corpos muito deteriorados. Ou seja, na igualdade podemos encontrar a diferença, e juntas contribuem para definir aquilo que somos. Não somos apenas iguais nem apenas diferentes, somos singulares, e por isso é fundamental preservar e acarinhar as raízes, as mesmas que garantem o branco dos nossos dentes.