quarta-feira, fevereiro 22, 2017

“Possessão”, um thriller poético

Belíssimo “tour de force” literário. “Possessão” é um romance com múltiplas camadas de significação e enquanto tal merece uma análise cuidada por camada. Do meu interesse em literatura, e do que me é mais facilmente acessível, defino três que me surgem de modo evidente — romance mistério, virtuosismo, e sátira académica — mas é claro que um trabalho mais profundo de análise e interpretação literária encontrará outras camadas de relevo. Daqui percebe-se que não estamos perante um simples romance, mas antes uma obra de grande labor. Aliás, não é por acaso a sua premiação com o Man Booker em 1990, mas diga-se que também não é por acaso o reduzido número de leitores, a julgar pelo GoodReads, e pelo facto do livro ter saído em 2008 em Portugal e eu ter adquirido em 2016 ainda uma cópia da sua primeira edição.


A.S. Byatt escreveu um romance académico a partir do seu conhecimento literário mas também com base em conhecimento experiencial da vida académica. Passou mais de metade da sua vida anterior à escrita de “Possessão” a leccionar Literatura Inglesa em diferentes universidades britânicas. O reconhecimento da qualidade do seu labor, pela academia, veio posteriormente à publicação de “Possessão” na forma de mais de uma dezena de Doutoramentos Honorários.


Romance mistério
A história acerca-se de dois investigadores em literatura, Roland Mitchell e Maud Bailey, cada um especialista no estudo do seu poeta vitoriano — Randolph Henry Ash e Christabel LaMotte — que por meio da investigação de diferentes documentos vão descobrir algo completamente novo. Enquanto poetas mortos há muito, acreditava-se já tudo saber sobre os mesmos, quando a ponta do véu de uma potencial conexão entre ambos se levanta, não apenas a curiosidade por saber mais se apresenta, como muitas das teorias até aí tidas sobre cada um destes poetas se fragilizam, pondo em questão muito do conhecimento existente.

Paisagem de Yorkshire, onde acontecem algumas sequências centrais do livro.

Acredito que Byatt, enquanto especialista em literatura, se tenha questionado sobre a estrutura a adotar para a escrita de uma tal premissa. Muito provavelmente percebendo a audiência limitada de uma história assente em minúcias de investigadores académicos, terá decidido adotar uma estrutura forte em termos de enredo, baseada no mistério e suspense, capaz de segurar o interesse do leitor geral. Para isto recriou a base clássica do romance impossível, condimentou-o com todos os ingredientes que nos fazem salivar e agitou tudo na nossa frente, obrigando-nos a ir atrás, desejosos por saber mais. Como se não bastasse, não se limitou a um foco romanesco, colocou dois poetas no século XIX, e dois investigadores no século XX, saltitando entre uns e outros, para que nunca nos faltasse ímpeto. E consegue-o, apesar do tema delimitado, apesar de uma abordagem estética pós-moderna, nunca o interesse por continuar a ler desaparece, tendo mesmo fases de alguma agudez em que não conseguimos pousar o livro.


Virtuosismo
Falei acima de estrutura porque é nela que Byatt exibe as suas maiores qualidades. Servindo-se do clássico discurso de mistério como dorso de suporte ao todo, são adotados múltiplos outros formatos discursivos para nos levar até ao cerne do universo criado: poético, confessional, intimista, académico. O texto em prosa serve de cola geral, mas o mesmo é continuamente ao longo de todo o livro, entrecortado por: textos de poesia; textos de cartas íntimas; textos não publicados de diários; textos de jornais; textos de artigos científicos. Por sua vez o próprio narrador vai saltitando no tempo (séculos XIX e XX), no espaço, entre personagens, e entre pontos de vista. É verdadeiramente virtuosa a estrutura, a complexidade que se entrosa para criar uma teia, que de tão perfeitamente tecida é a todo o momento completamente compreensível e digestível.

Mas não é só na estrutura que Byatt surpreende, todos estes textos, todas estas vozes, todos os pontos de vista, são criados por si. Byatt pretende criar a ideia de textos pré-existentes, que vão sendo encontrados, à semelhança da tradicional narrativa detetivesca, mas aqui esses textos não são apenas referenciados, ou apropriados pela prosa, nem são tão pouco citados, retirados de outras obras. Para chegar àquilo em que resulta o todo desta obra, Byatt teve de criar universos próprios e estéticas para dois poetas vitorianos, os vários textos de jornal vitorianos, diários intimistas por múltiplas vozes, cartas e respostas de cartas, cada uma dotada de identidade própria. Temos múltiplas histórias dentro de múltiplas histórias, mas todas trabalham para uma mesma e única grande história, sendo este mesmo trabalho de união do todo, seguindo a abordagem de coerência causal, a “unidade de ação” de Aristoteles, que faz com que o final do livro seja tão gratificante, impactante, verdadeiramente catártico.


Sátira académica
Se os dois primeiros níveis são de grande qualidade, é aqui que me sinto mais em casa, e desse modo quero dividir este ponto em dois subpontos: a crítica das rotinas e rituais dos académicos tão próximas da minha realidade diária; e a crítica aos modelos de fazer ciência.

Relativamente ao mundo humano que habita a academia temos uma crítica certeira, começando pelo protagonista que apesar de fazer um bom trabalho, e ter excelentes capacidades, não consegue atingir uma posição estável no seio da universidade por força da sua inabilidade social. Temos assim que as Universidades apesar de propalarem uma cultura de mérito, o chico-espertismo consegue ainda vingar. Por outro lado, a guerra entre os dois professores seniores, britânico e americano, especialistas no poeta central do livro, é também muito interessante pelo modo como espelha a diferença entre as academias americana e a europeia. Do lado Europeu, o interesse cultural, o interesse de uma nação, povo e acima de tudo do bem comunitário. Do lado americano, o interesse económico e individualista. A força do dinheiro que tudo pode, tudo consegue.

University of London

O livro é de 1990 e reporta uma visão ainda distante do que se vive hoje, porque se nesse altura se olhava para os EUA com desdém e crítica, esse olhar deu uma volta de 180º, e hoje toda a academia europeia olha para a academia americana em busca de modelos a copiar e imitar. Hoje os gestores e políticos que regem as universidades europeias nada mais anseiam do que o poder financeiro. Daí, que o conhecimento tenha sofrido tantos revés, e muito daquilo que hoje se faz em termos de investigação acaba por vezes sendo bastante questionável.

Mas a crítica à academia é cíclica, ou melhor dizendo contínua, nunca estamos bem, e ainda bem. E por isso em “Possessão” a crítica de Byatt, para além dos pontos mencionados, foca-se num problema iniciado nos anos 1970, nomeadamente ao nível de domínios das Humanidades, com toda a componente de áreas iniciadas por “Estudos”: de cinema, de literatura, feministas, culturais. Marcados pela ausência de um domínio de psicologia, ainda subdesenvolvido, dominado por uma psicanálise que de científico tinha pouco, e de esotérico tinha muito, vão começar a fazer surgir “verdades” assentes em teorizações fantásticas de Freud, Lacan, entre outros. Como consequência, a academia começa a perder credibilidade, mas o pior é que em vez de recuar, acelera e atira-se para o precipício por meio daquilo que chamaria mais tarde de pós-modernismo, que nos trataria até ao momento atual, o da pós-verdade.

A crítica do livro é mais dirigida aos Estudos Feministas, mas é um claro ataque aos seus métodos, que não eram seu exclusivo, e está fortemente presente no cerne da obra, como choque mesmo, podendo passar despercebida a quem está distante destes assuntos. Assim, ao longo de toda a jornada encetada por Maud e Roland, existe a todo o momento uma preocupação com a verdade na forma de prova, com a demonstração efetiva do que teria acontecido no século anterior entre aqueles dois poetas, uma tentativa de buscar evidências que tornem claro o que se pretende afirmar de novo. E é aqui que surge a graça, o riso, já que muito do conhecimento detido sobre Randolph Henry Ash e Christabel LaMotte é de origem interpretativa, pejado de simbolismos e vieses de cada investigador, sendo agora postos em cheque e mesmo destronados pelo novo conhecimento. Mais se poderia ainda dizer, nomeadamente sobre a crença e descrença no espiritismo que surge a meio do livro, com Ash e LaMotte colocados de lados distintos.


Por fim, não quero deixar de destacar uma última camada, que não analiso porque daria todo um texto próprio, e que o livro nos oferece a partir do seu título. A “Possessão” surge em múltiplas formas ao longo de todo o livro, e pode ser lida em conexão com qualquer um dos pontos acima discutidos, contudo para mim o foco esteve ligado à ideia de autenticidade. Desde o início, aquilo que conduz Roland a, na biblioteca, ficar na posse dos dois esboços de cartas, é o modo como ele define o que sente, a sensação de tocar num papel tocado e escrito pelo próprio Ash. A posse é depois definida de modos diferentes, consoante o personagem, mas existe um fascínio com essa autenticidade, que por sua vez se liga com a ideia de prova e existência. Este tema daria assim para discutir a nossa efemeridade e por outro lado a extensibilidade da mesma em remanescentes externos de garante de perenidade.
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