segunda-feira, julho 03, 2017

Memórias de Adriano (1951)

Uma leitura histórica de um livro histórico sobre uma personagem da nossa História. Adriano, o imperador de Roma que estabeleceu a Paz e escolheu como sucessor o único imperador filósofo de Roma, Marco Aurélio. O livro assume um caráter confessional emulativo, com Yourcenar a investir 25 anos da sua vida para conseguir sentir-se na pele do imperador do século II, e assim dar-nos a experienciar a hipotética última carta de Adriano, já doente, para Marco Aurélio que o iria suceder. Uma viagem no tempo, por meio de uma escrita perfeita e intensa, carregada de poética e com muito para nos ensinar.


O livro é de 1951, foi um enorme sucesso e já foi amplamente dissecado, ainda assim talvez o melhor que se possa ler sobre esta obra sejam as notas finais que Yourcenar coloca no fim do livro, para compreendermos a aventura e a vida necessária para chegar ao termo desta obra. Se aprendemos a respeitar Adriano ao longo do curto livro, não menos respeitaremos Yourcenar por tudo o que passou para nos colocar estas páginas nas mãos.


Villa Adriana, uma vila de 120 hectares situada a 30 km de Roma, na qual terá vivido Adriano.

E isto leva-me ao que senti ao longo de todo o livro. Porque se adorei e recomendo vivamente, não posso deixar de dizer que é obrigatório ler, antes ou depois, “Meditações” (180) de Marco Aurélio. Se adoraram Adriano, nem sabem o que perdem para amar Marco Aurélio. Para mim que o li primeiro, consegui sentir Yourcenar a bater no tom perfeito do livro, a proximidade do discurso, da melancolia, do distanciamento no tempo, está tudo lá, mas não está. Ler as palavras, ditas, escritas, pensadas por Marco Aurélio é capaz de por vezes nos arrepiar. Como se fossemos colocados num modo telepático com o imperador de há 2000 anos.

Não conheço suficientemente História para saber o que cada um destes homens fez para além do que vem nestes dois livros, mas pensava ao ler o livro de Yourcenar, que o facto de ter sido escrito por alguém que vê de fora, talvez faça com que os escritos sejam mais balanceados. Adriano foi um grande imperador, mas era uma pessoa também cheia de defeitos e coisas mesquinhas, muitas delas fruto do tempo e posição que ocupou. Já em “Meditações” é tudo tão perfeito, quase sonho, e apesar de Marco Aurélio ter sido um verdadeiro filósofo, talvez nos seja dado a ver apenas uma parte da sua pessoa, ainda que ele tenha escrito tudo aquilo sem qualquer intenção de se publicar.

Adriano fica para mim como um imperador de enorme dignidade e visão. Duas histórias marcaram a minha leitura: Antínoo e Judeia. Adriano não teve filhos, apesar de casado o grande amor da sua vida foi um jovem rapaz de 20 anos, Antínoo, que deu a vida pelo seu imperador, e a quem este dedicou uma cidade inteira. Muitas histórias existem à volta deste personagem da nossa História, uma dessas foi contada por Fernando Pessoa num extenso poema que lhe dedicou em inglês, "Antinous: A Poem" (1915). Quanto à Judeia, é no mínimo estranho que Adriano tenha ficado ao mesmo tempo como o imperador da Paz e aquele que criou a Palestina.

Busto de Antínoo, encontrado na Villa Adriana. Colecção do Museu do Vaticano

Ainda assim e comparando mais uma vez ambos os livros, prefiro “Meditações” pelo facto de serem memórias de pura reflexão sobre o ato de viver, dos porquês desta vida, enquanto “Memórias de Adriano” é mais relato do que se viveu, dos como se vivia e poderia viver, mas o melhor sem dúvida surge em tudo aquilo em que ambos se complementam.
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